Nota de abertura

[Dinâmicas e contextos da pós-transição]

 

Carlos Piteira*

Os contextos e as dinâmicas do período da pós-transição no território de Macau têm sido objeto de várias análises e reflexões que vão pigmentando o quotidiano de quem aí vive e é “actor” dessa mudança. Por certo, a maioria da população nem se dá conta, até porque, a realidade vivida no seu dia-a-dia transforma-as em rotinas e hábitos que se vão adquirindo.

Porém, para quem dela está distanciada, as leituras são um pouco diferentes, são os momentos de incursão e de vivência precária, num retorno eternizado, que nos vão dando as “narrativas” captadas por via da comparação entre este e aquele momento vivido, perpectivando-as numa análise comparativa.

A micro-sociedade de Macau está repleta de referenciais que são, ora marca da História, ora marca da contemporaneidade, sob a qual se vai edificando a realidade chinesa e porque não dizê-lo, também da diáspora portuguesa no espaço da RAEM.

Aqui deste lado, do além-mar, é o amor à terra e às gentes que nos faz continuar a querer perceber essa Macau tão distante e tão perto simultaneamente, tentando procurar uma justificação que nos legitime o querer manter essa ligação.

Como macaense, em primeiro lugar e como antropólogo e investigador, curioso do mundo que nos envolve, aceitei o convite (e também o desafio) de contribuir para essa reflexão sob este formato de crónica de opinião, que valerá o que vale. O leitor fará o seu juízo da forma que o entender.

O referencial de Macau, no que diz respeito ao território e às gentes, será sempre marcado pelo marco histórico do período da pós-transição, onde a sigla RAEM (Região Administrativa e Especial de Macau) passa a denominação oficial.

Para muitos de “Nós” Macau será eternamente, apenas e só Macau mas, como em todos os processos históricos, o tempo e as gerações vindouras tratarão de ir impondo uma nova contextualização. Resta-nos as memórias e os relatos de um passado que serão (ou não) dignificados ou perpetuados à medida que formos capazes de os ir impondo na atual dinâmica que a caracteriza.

Este será porventura o desafio que se exige a Portugal e por extensão à comunidade portuguesa e macaense que vai ainda insuflando essa singularidade no território e fora dele, nomeadamente, através de uma diáspora que teima em instituir-se e em celebrar a Macau como espaço singular que também lhes pertence.

Os tempos e as dinâmicas da atualidade não se preocupam com os detalhes da memória, apenas a recupera em tempos de crise, desde que sejam úteis. Assim sendo, a perpetuação e a manutenção dos traços identificativos são uma obra do presente, para que o futuro delas se possa lembrar.

Quanto ao património físico de Macau, não me restam dúvidas que o legado da influência lusófona seja provavelmente perpetuado, até porque é útil ao atual contexto da dinâmica da RAEM como afirmação turística que exala algum “exotismo” ocidental para quem a visita.

Já no que toca à herança imaterial e intangível, tenho algumas reservas, isto apesar da recente inclusão do “patuá macaísta” no roteiro patrimonial da RAEM. A perpetuação do imaterial implica, em grande medida, a sua tradução nos “modos de vida” quotidiana ou então em forma de festividade ou de “folclore” tradicional que consigam agregar aderentes ou praticantes, ou seja, a necessidade de haver “pessoas” que deem alma a essa continuidade.

Serão os residentes da RAEM (em particular os de influência lusófona no seu sentido lato) capazes de manter vivos os traços identificativos que permitem hoje oferecer uma “face” de Macau onde ainda predomina o legado da singularidade, de um “modo de estar e viver” multifacetado e pluricultural? Ou é uma questão de tempo até que a RAEM surja com outra face, mais eclética e mais distanciada do seu passado, para se afirmar como cidade do jogo e do lazer onde a modernidade supera as tradições e o referencial histórico?

Deixo a questão em aberto, voltarei provavelmente ao assunto quando a inspiração assim o permitir, apesar do cunho pessoal que se imprime nestas opiniões, a reflexão é afinal de todos “Nós”, os que queremos continuar a sentir o “laço” emocional que nos liga a Macau, independentemente da forma como os agentes políticos a querem formatar.

 

*Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Socias e Politicas / Universidade de Lisboa

 

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