Uma rua sem campo

Inês Santinhos Gonçalves

A ideia começou por me chocar, depois fez-me rir e por fim admiti derrota. Cavaco Silva sugeriu que o ar limpo de Portugal seja “vendido” em campanhas de marketing para atrair visitantes chineses. Em que mundo vivemos, pensei.

Voltei a lembrar-me destas inusitadas declarações do Presidente português enquanto, esta manhã, percorria a Rua do Campo, um erro crasso que só se desculpa pelo estado de sono e desatenção em que me encontrava.

Não é preciso estar em Pequim para sentir a garganta arranhar e os olhos a picar. Parte da poluição atmosférica que atinge Macau pode vir da China, mas é o escape dos carros que nos entra pelo nariz a dentro diariamente.

Segundo o Governo, apenas por uma vez este ano a poluição ultrapassou os limites permitidos por lei, facto que não serve de grande consolo, já que os limites impostos por Macau muito deixam a desejar.

Pouco preocupado com o facto de estar a promover o lucro de um país através do grau de desespero ambiental de outro – ao ponto de, na altura de escolher o destino de férias, as pessoas coloquem em prioridade máxima um ar minimamente respirável – o Presidente português continuou elogiando o crescimento, desenvolvimento, estabilidade e prosperidade de Macau (também resumido através do termo ‘dinheiro’). No entanto, a par deste inegável crescimento económico, a população foi confrontada, num espaço curto de tempo, com duas realidades incómodas: o acentuado aumento do custo de vida e uma intensificação aguda da poluição atmosférica. Chamem-lhe desenvolvimento, se quiserem.

Foi com agrado que soube que a Universidade de Macau vai começar a estudar o impacto dos poluentes na saúde da população. Sabemos que a inalação de partículas suspensas é perigosa, tal como o monóxido de carbono e o dióxido de azoto, abundantes em Macau. Mas enquanto um estudo científico não vier provar claramente as consequências na saúde dos habitantes, nada será feito. O Governo continuará a dizer que a qualidade do ar está boa ou, no limite, moderada.

Os mesmos cientistas que se propõem a estudar a situação em Macau já realizaram um estudo no território vizinho e conseguiram estabelecer uma relação entre a concentração de poluentes e a taxa de mortalidade entre os idosos. O estudo incluiu uma análise a longo prazo, já que só assim se consegue avaliar o impacto na saúde – o perigo não está apenas em estar-se exposto aos poluentes, mas na sua inalação crónica. Os dados evidenciaram padrões: quando se registava uma concentração particularmente elevada e prolongada de um dos poluentes mais prejudiciais, meses depois a taxa de mortalidade dos mais velhos acusava um pico.

Não será este ano que o estudo sobre Macau vai estar concluído, mas são boas notícias que esteja a avançar. Como é de louvar que a Associação dos Médicos de Língua Portuguesa promova hoje um debate sobre o tema. Mal por mal, é melhor sabermos o que nos anda a matar. Até lá, farei os possíveis para evitar a Rua do Campo. Quem a apelidou, talvez por ter rasgado os campos que ocupavam aquela zona, nunca terá imaginado quão amarga seria a ironia.

 

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