O soft power da língua

[Territórios da Língua]

 

Ana Paula Dias*

A 16ª edição do Festival de Línguas Estrangeiras de Pequim decorreu entre os dias 17 e 18 de maio no Parque Chaoyang. O festival foi fundado em 2002 e atrai regularmente milhares de pessoas. Patrocinado pelas autoridades municipais, o evento de dois dias inclui uma vasta gama de actividades, que incluem espectáculos ao vivo, jogos e exposições.

A Universidade de Línguas e Cultura de Pequim é parceira do evento e participa nele com mais de 200 dos seus estudantes estrangeiros, de 31 países diferentes. Representando os seus respetivos países de origem, esses alunos levam a cabo demonstrações em conjunto no festival para apresentar as culturas de onde provêm. Os países pertencentes à Cooperação Económica da Ásia-Pacífico (APEC, na sigla inglesa) também foram exibidos na mostra, em apoio à próxima reunião da APEC em maio deste ano. Várias embaixadas estrangeiras em Pequim ajudaram igualmente na organização do festival.

O evento de dois dias é destinado a quebrar barreiras linguísticas e a motivar para o processo de aprendizagem de línguas estrangeiras. A França, o Japão, a Irlanda e a Coreia do Sul são alguns dos países representados. Na sequência do entusiasmo pelo inglês despertado pelos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, há voluntários internacionais a ensinar inglês básico no “canto do Inglês”. Foi também criado o “canto multilingue” para as pessoas comunicarem umas com as outras em oito idiomas: Inglês, alemão, francês, espanhol, coreano, japonês, árabe e russo. Para além disso, vários professores de língua estrangeira das universidades de Pequim foram convidados para ensinar o público a cantar músicas em vários idiomas.

Existem dezenas de performances, incluindo dramas, talk shows, concertos e declamação de poesia. O festival tem como objetivo enfatizar a comunicação, interatividade e do uso prático da linguagem. Muitos dizem que é também uma forma de estabelecer uma ponte entre as culturas.

No espaço do festival, podem ser vistos quiosques das agências de educação, das escolas de línguas e de empresas afiliadas produtoras de materiais pedagógicos. Algumas delas disponibilizam jogos gramaticais para atrair as crianças. Os responsáveis por essas empresas consideram que a participação no evento é uma forma eficaz de promoção dos seus produtos, embora possa não se traduzir necessariamente num aumento de vendas. No entanto, ajuda a despertar o interesse pelas línguas estrangeiras e a conhecer os meios para ultrapassar apoiar a aprendizagem e ultrapassar dificuldades.

O festival atraiu não só os jovens estudantes de línguas estrangeiras, mas também pessoas mais velhas, que aprenderam línguas há muitos anos. Estes visitantes participam igualmente nas actividades disponíveis: alguns cantam canções no palco em inglês, russo e outras línguas estrangeiras, enquanto outros se sentam calmamente, longe das performances, lendo em voz alta palavras inglesas. Os motivos para o seu interesse são variados, desde poderem comunicar com os netos a viagens que pretendem fazer.

Após o encerramento no Parque Chaoyang, o festival prosseguiu com sessões noutros bairros, organizações e universidades em Pequim.

Este festival é um excelente exemplo de soft power, expressão cunhada no âmbito das Relações Internacionais por Joseph Nye, em 1990, e que ganhou visibilidade nos últimos anos. Na verdade, em entrevista ao Económico em março de 2012, o autor apresentava o conceito e afirmava que Portugal o devia aplicar: “Portugal deve usar o ‘soft power’ da sua Língua e cultura para desenvolver relações com o Brasil e com os países africanos de língua oficial portuguesa. O Brasil teve um progresso económico e político impressionante nas últimas décadas, e Portugal deverá beneficiar das ligações históricas e linguísticas.”

O seu livro O Futuro do Poder defende que, no mundo actual, o poder “com” deve ter mais espaço do que o poder “sobre”. Sempre com base em teorias do campo das Relações Internacionais, o livro expõe “o jogo de xadrez tridimensional” do poder – várias camadas, muitas frentes e uma conclusão: ninguém vai a lado nenhum sem o dito soft power.

O termo é utilizado para descrever a capacidade de um corpo político influenciar o comportamento e interesses de outros corpos políticos. Refere-se à capacidade de influência de uma nação através da inspiração e atração, por meio da propagação de uma dada identidade cultural, política e ideológica, em contraposição à coerção ou poder militar (o chamado hard power). Assim, para o sucesso do soft power de um país, que é apontado pelo autor como sendo mais duradouro e eficaz, seria de extrema importância a relação de admiração e curiosidade no plano internacional pelos seus valores, o seu idioma, as suas instituições e a sua cultura.

Alguma notícia sobre a representação de Portugal e da língua portuguesa no Festival de Línguas Estrangeiras de Pequim?

 

*Doutoranda na Universidade Aberta

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s