Causas Cabo-verdianas

Filinto Elísio

Poeta e cronista

 

  1. Defendo, com causa e consequência, a oficialização da Língua Cabo-verdiana. O protelar deste desafio, a responder razões que a Razão não explica, indicia o quanto ainda falta para a realização da Nação Cabo-verdiana. Aos 40 anos da Independência de Cabo Verde, a cumprirem-se em Julho de 2015, seria mister não só o pleno cumprimento dos Objetivos do Desenvolvimento do Milénio, mas também, como prova de transformação consequente, a Oficialização do Crioulo de Cabo Verde. Um parêntesis para sinalizar que os argumentos sobre a não padronização da escrita é desvirtuar o processo-histórico linguístico e alienar o sentido de causa-efeito. Sobre a língua já reconhecida oficialmente e não desse modo acanhado, complexado e sub-reptício, lançar-se-ia um longo e compreensivo (diria até democrático) programa de consensualização dos seus ideogramas e grafemas. Assim, o Estado Democrático de Direito, que orgulhamos de ter, faria mais sentido em termos de realização constitucional e os cidadãos cabo-verdianos, ciosos dos seus direitos civis, bem como das suas liberdades e garantias, assumiriam, sem algum rasgo de esquizofrenia identitária, o seu Bilinguismo. Em verdade, os cabo-verdianos são hospedeiros de duas línguas nacionais coabitantes e jamais excludentes – a portuguesa e a cabo-verdiana -, essencialidades deste “mundo que o cabo-verdiano criou”, parafraseando o grande poeta e pensador Gabriel Mariano. Não se quer língua nossa na fantasia da Casa Grande, nem na realidade da Senzala.

 

  1.   Igualmente, defendo, não só a oficialização (em paridade e em coabitação saudável) das duas línguas nacionais de Cabo Verde, como o esforço educativo de aprendizagem de mais duas línguas estrangeiras em mais larga escala e em melhor sistemática. O multilinguismo é claramente um dos fatores do Desenvolvimento. Naturalmente que a “Educação do Futuro” terá de colocar forte acento nas matemáticas, nas ciências da vida e nas novas tecnologias, bem como no empreendedorismo e no humanismo. Integrar toda a dinâmica educativa, em torno da inovação, da criatividade e da complexidade, como no-la perspetivou o filósofo Edgar Morin. A “Educação do Futuro” terá de atingir 12 anos de escolaridade obrigatória, efetivamente realizar a “Internet para Todos” e atualizar os ambientes do ensino/aprendizagem para cenários do século XXI. Uma pedagogia da esperança, ciência com consciência e cidadania do conhecimento. Uma didática para além da mecânica pedagógica, mas que promova a autoestima dos estudantes e encoraje à liberdade de aprender, aprender sempre, como costumava dizer Amílcar Cabral.

 

  1. Em tempo colonial, a liberdade de refletir, debater e realizar iniciativas políticas não era consentida. O espaço de pensamento e de ação era pequeno e circunscrito às opções do Estado Novo, fascista no seu desenho e de jaez colonial. Em tempo de soberania, mais precisamente da I República cabo-verdiana, o alargar da liberdade de refletir, debater e realizar iniciativas políticas não foi suficiente, ainda que justificada no ideário da Reconstrução Nacional como “prioridade absoluta”. Embora fosse regime reformista e, por bom senso, exercido com alguma moderação, não faltaram nesse tempo excessos evitáveis e situações que, em termos de cidadania, não dignificariam o afã dos Novos Tempos. Com o advento da Democracia, resultante da abertura política de 1990, mas constitucionalizada em 1992, passando pelo marco histórico das eleições multipartidárias de 1991, passa-se à II República, com o dinâmico exercício da liberdade de refletir, debater e realizar iniciativas políticas. De lá para cá, houve um incremento gradativo e efetivo não só do regime constitucional democrático, como do aculturar das liberdades, direitos e garantias dos cidadãos. As demandas democráticas tornaram-se mais maduras e mais complexas, tanto que já não se satisfazem apenas com o bipartidarismo forte (mais alternante que alternativo) num campo “estabelecido e a consolidar-se”, relegando para as margens tanto os pequenos partidos como o capital político da sociedade. Apercebe-se, aos poucos, ser já tempo de a Sociedade (amadurecida e modernizada) assumir-se como “força dirigente” do sistema político e poder formular alternativas mais consentâneas com esta contemporaneidade. Já longe vai o tempo colonial…e tal liberdade já é consentida!
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