Crítica, Harmonia e Patriotismo

[Sinologia Portuguesa]

 

Ana Cristina Alves*

Se tivesse que dividir o mundo por posturas filosóficas diria que no Ocidente reina a crítica e no Oriente chinês a harmonia.

O patrono do pensamento contemporâneo, Immanuel Kant (1724-1804), resume bem a questão de O que é o Iluminismo? Num dos muitos aforismos que o celebrizaram: Atreve-te a pensar. Desafio este que vai lançando aos contemporâneos em todas as suas obras, por exemplo na Crítica da Razão Pura ou na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, quando afirma: Tem a coragem de usar a tua própria razão.

Desde as Revoluções Americana e Francesa que o mundo ocidental procura proteger a sua herança trinitária: a liberdade, a igualdade e a fraternidade, sendo que a liberdade surge associada à defesa da crítica enquanto possibilidade de expressão livre e autónoma do pensamento individual.

É por esta bandeira de valores tricolor que muitos dos ocidentais se batem, por a considerarem a mais elevada e digna das heranças. Para muitos de nós é sem dúvida. No entanto, o mundo não pensa todo da mesma maneira e há tendências, senão inatas pelo menos culturalmente inculcadas ao longo de séculos, que se tornam difíceis de ultrapassar e substituir.

Muitos dos chineses construíram o seu mundo de valores em torno da ideia de harmonia. Para eles este valor é absolutamente fundamental. A tradição da harmonia vem de longe, dos tempos de Confúcio (孔子 551-479 a.C) e foi sistematizada alegadamente por um neto Kongji (孔伋 483-402 a.C) em Zhong Yong (《中庸》).

A Doutrina do Meio, o nada em excesso, a justa medida, cultiva-se através da harmonia tanto exterior como interior. Assim o sábio confucionista será aquele que consegue refrear e controlar as suas sensações, desejos e emoções, de modo a harmonizar as forças que se digladiam em si e em seu redor.

Viver em harmonia é para os chineses mais do que um ideal, um valor concretizável a cada nova era, desde os tempos da Antiguidade confucionista até à moderna sociedade socialista. Hu Jintao (胡錦濤), presidente entre 2002 e 2012, volta em 2006 a trazer para primeiro plano este valor, como ideia-guia da nova sociedade: a sociedade socialista harmoniosa (hexie shehui 和諧社會).

Não quer dizer que não encontremos chineses capazes de criticar. Claro que existem e sabemos como são diferentes entre si, basta pensar não apenas nas 56 etnias constitutivas da China continental, mas ainda em Hong Kong, Macau e Taiwan.

No entanto, a tendência mais marcante entre os chineses não é a postura crítica, mas a atitude harmoniosa que se estende a todos os sectores das várias sociedades e subculturas, servindo de sustentáculo a um valor tão importante como o patriotismo.

Ao seguir um debate do canal Phoenix (鳳凰) apercebi-me pela primeira vez de que a capacidade crítica era oposta entre os chineses ao sentimento de patriotismo. Um dos intelectuais em questão afirmava o quanto lhe repugnava a mania de se criticar o próprio país. Dizia que era uma acção feiíssima que só ficava mal a quem a praticava.

Nós diríamos que é como lavar a roupa suja em público, sendo que este público é encarado como as forças internacionais, e o privado, neste caso, a grande China, porque, de acordo com o seu argumento, ele se identifica inteiramente com a sua terra, logo criticar a mãe-pátria é o mesmo que se insultar a si próprio.

Para que não restassem dúvidas sobre a sua posição, recordou os tempos traumáticos da Revolução Cultural, onde a crítica, aqui na faceta de autocrítica, era usada para fazer mal e destruir as pessoas.

Neste tipo de argumentação a crítica é sempre encarada negativamente, como uma força bélica e aniquiladora. Nunca há a defesa de uma crítica construtiva, e o atreve-te a pensar por ti próprio só tem sentido se for para emitir juízos harmoniosos, caso contrário é melhor que as pessoas guardem o que pensam, pois podem ferir os sentimentos dos outros.

O comentador televisivo afina pelo diapasão geral. Vejamos o que nos diz Lin Yutang (林語堂1895-1976),um dos grandes intelectuais chineses do século XX, que deu a conhecer ao Ocidente o pensamento do seu povo:

Eu que atacava a civilização da Ásia oriental, hoje sou seu defensor. Sinto que aqueles que atacam e desonram o meu país, me atacam a mim mesmo. As honras e desgraças do meu país pertencem-me, e eu estou sempre a defender os chineses, como se fosse um diplomata. ( Li Xia, 宛然以我国之荣辱为个人之荣辱,处处愿为东亚病夫作辩护,几沦为通常外交随员2009: 139)

Para concluir, confesso que também não aprecio a lavagem de roupa suja em público e portanto desagrada-me por exemplo ouvir dizer mal do meu país, sobretudo à frente de estrangeiros. Porém não sou só patriota, também sou crítica, porque aceito de bom grado todas as deixas construtivas e cultivo o atrevimento de pensar por mim própria. De modo que entre a crítica desenfreada e a harmonia acéfala deve ser possível encontrar uma doutrina do meio. Por outras palavras, deve haver ainda espaço para um meio-termo no interior da doutrina do meio chinesa, onde as pessoas possam exercer as suas capacidades críticas sem serem denegridas ou destruídas, bem como um meio-termo na crítica desmedida que corta qualquer possibilidade de entendimento.

 

*Professora convidada do Departamento de Português da Faculdade de Artes e Humanidades

 

Bibliografia e webgrafia

李霞2009《趣读中国人Unravelling The Mystery Chinese Faces, 北京:外文出版社

林語堂《吾国与吾民》(My Country and my People), 北京:中国戏剧出版社

Zhong Wu “China Yearns for Hu´s Harmonious Society”, http://www.atimes.com/atimes/China/HJ11Ad01.html,  Asia Times, 11 de Outubro de 2006

Kant Quotes https://www.goodreads.com/author/quotes/11038.Immanuel_Kant

 

 

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