A experiência patuá

Iris Lei

Num fim-de-semana chuvoso, um espectáculo do grupo de teatro em patuá cria expectativa e é a única razão que me move a sair de casa. E, de facto, valeu a pena.

A estreia teve casa cheia e, por certo, muitos macaenses, mas também me chamou a atenção ver bastantes chineses entre o público. Não tive tempo para falar com eles, mas estou certa de que saíram com uma opinião positiva em relação à peça, que segue um tom humorístico para satirizar a escalada louca do preço das casas e o fenómeno cada vez mais comum de partilhar apartamento com outros para aliviar as contas.

Naturalmente, houve mais razões para sátira. Por exemplo, o caso das campas, o atraso do metro, a relação entre o Continente e Macau – o exagerado visitante do Continente aparece como salvador e promotor da economia local.

A peça é fácil de entender, mesmo para crianças, e de vez em quando ouvia-se o riso delas na sala, o que me faz indagar sobre o tipo de apetite que têm por assuntos de actualidade.

O meio pelo qual se desenrola a peça é o patuá, um crioulo da mistura do português, do cantonês, do malaio e do cingalês. Com a ajuda da legendagem, consegui compreender algumas partes. O crédito vai para o próprio idioma, uma vez que preserva expressões bastante coloquiais do cantonês corrente, como ‘cha siu fan’ (arroz com porco assado) e ‘nei hui sei’ (literalmente, vai morrer). Acredito que tenha também partes interessantes provenientes de outras línguas.

O patuá, porém, está “gravemente ameaçado”, segundo a classificação da UNESCO, uma vez que apenas meia centena de pessoas o dominavam no ano 2000. Nunca foi ensinado nas escolas nem gozou de qualquer estatuto oficial, fosse na Administração portuguesa ou já na Administração chinesa, com as crianças a serem desencorajadas de imitar os adultos (tal como referiu o director da peça em declarações à imprensa de Hong Kong), sem referir que o crioulo era visto como uma forma de comunicar entre as classes sociais mais baixas.

A relação humilde e subserviente entre o patuá e o português europeu lembra-me um pouco da relação entre o cantonês e o mandarim. Pondo de parte uma infinidade de argumentos sobre qual o que tem uma capacidade de expressão mais profunda, a adopção da língua tem mais de agenda política do que de dimensão de uso pela população. Não deixo de me questionar por vezes do porquê de ser impossível a coexistência destes idiomas em termos igualitários, tal como sucede com o inglês e suas línguas de contraparte, para que se possa apreciar mais a diversidade cultural deste local.

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