Hoje é dia de ir a votos no Iraque

[Um quê de quoi]

 

Cláudia Aranda, em Bagdade

Hoje, 30 de Abrill, será a primeira vez que Saif sai para votar, se conseguir uma folga no trabalho. O governo concedeu vários dias de tolerância ao sector público para garantir que os funcionários conseguem organizar-se para irem votar.

Mas, não há folga para Saif, que trabalha no serviço de atendimento ao cliente da maior operadora de telemóveis privada do Médio Oriente estabelecida no Kuwait e dominante no Iraque. Ainda assim, Saif vai tentar dar uma escapadela. “Desta vez, as pessoas querem mudança”, diz fixando-me com uns olhos inusitadamente azuis, enquanto conta que perdeu um amigo na segunda-feira numa explosão provocada por um bombista suicida em Al-mansour, muito perto de sua casa.

O trânsito automóvel está suspenso desde as dez horas da noite de ontem (29 de Abril). O aeroporto internacional de Bagdade vai estar encerrado durante três dias. Circular hoje nas ruas da capital do Iraque exige, sobretudo, muita coragem e força de vontade. Para os habitantes desta cidade ir votar implica fazer uma longa caminhada desde casa até à assembleia de voto onde se encontram registados, um caminho que se faz debaixo de um sol abrasador e com temperaturas acima dos 37 graus. Ir votar implica, também, arriscar a vida.

“O dia de eleições vai ser tenso” avisou Mohammed. A segurança nos check-points foi reforçada. Mas, as previsões para hoje, em termos de segurança, são as piores, depois do que aconteceu na segunda-feira. No dia de eleição destinado aos soldados e polícias, que hoje vão estar a proteger as assembleias de voto pelo país fora, houve dezenas de ataques e contam-se já mais de 50 mortos, entre os quais, o amigo militar de Saif.

A conversa aconteceu ontem, e de novo, no café do antigo hotel Sheraton de Baghdad, um dos lugares “seguros” da cidade, depois do hotel Al-Rasheed, tudo relíquias arquitectónicas do tempo do regime de Saddam Hussein.

Bebe-se café turco porque a máquina do café expresso não funciona, apesar de ali estar exposta, reluzente, com as chávenas e pires devidamente alinhados no topo. O ambiente é climatizado, mas o ar-condicionado está longe de produzir ar fresco. Há uma família com crianças à volta de uma mesa.  Noutro canto senta-se um grupo de homens musculados, calças e t-shirts esverdeadas, provavelmente os guarda-costas da família com crianças. À minha frente a jovem recém-casada Dahlia não cabe em si de felicidade, apresenta-me o noivo,  magro e delicado, e lamenta que eu não tenha podido assistir à cerimónia. Dahlia também tenciona ir votar antes de partir em lua-de-mel para Kuala Lumpur, daqui a três dias quando o aeroporto voltar a abrir.

Ontem, véspera de dia de eleições, não havia vivalma nas ruas de Bagdade, apenas os vestígios de destruição provocados pela chuva tempestuosa da noite anterior: postes de iluminação caídos no chão, cartazes de propaganda eleitoral espalhados nas ruas.

Hoje espera-se um dia tenso, avisou Mohammed.

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