Dos Balcãs para o mundo: Goran Bregovic e a Orquestra de Casamentos e Funerais

Anson Ng*

Aclamado como incontornável embaixador da música dos Balcãs há mais de uma década, Goran Bregovic introduziu a música étnica do leste europeu ao resto do mundo. O compositor juntou influências sérvias, bósnias, croatas, búlgaras, gregas e ciganas, misturou-as com a sua fusão de rock, música clássica, reggae e tango e o resultado foi um som musical inesquecível.

Antes de começar a ser conhecido internacionalmente, Goran Bregovic já era uma estrela do rock no seu país. Foi o realizador sérvio Emir Kusturica que lhe abriu as portas além-fronteiras ao convidá-lo para compor várias bandas sonoras para os seus premiados filmes. Juntamente com a Orquestra de Casamentos e Funerais foi levado ao estrelato, tocou em icónicas salas de concerto e chegou a um público de mais de um milhão de pessoas.

De estrela rock a mestre das bandas sonoras 

Nascido em Sarajevo em 1950, de mãe sérvia e pai croata, Bregovic estava talvez destinado a fazer da música a sua ferramenta para exprimir os complexos sentimentos ligados à etnicidade. Os primeiros anos foram dedicados ao estudo do violino num conservatório, mas acabou por se sentir muito mais atraído pelo rock. Aos 16 anos formou os “White Button”, banda que ganhou imensa popularidade no Leste da Europa tendo vendido mais de seis milhões de álbuns, afirmando-se com o estatuto de banda idolatrada aos olhos do público jovem. Mas o rebentar da guerra nos Balcãs obrigou ao desmembramento do grupo. Foi nessa altura que Bregovic foi convidado por Emir Kusturica, seu amigo de longa data e realizador de cinema, para compor bandas sonoras. Viajou para Paris sem saber que estava à beira de embarcar noutra aventura musical. A parceria abrangeu “Time of the Gypsies” (1988), “Arizona Dream” (1993) e “Underground” (1995) todos eles tão bem recebidos pela crítica que o mundo parou para ouvir. Em 1994 compôs mais uma banda sonora, uma sinfonia rock para o Filme “Rainha Margot” de Patrice Chéreau – outro sucesso fenomenal. A comédia documental “Borat”, que em 2006 deu muito que falar, continha muita da sua música na banda sonora. Para além do grande ecrã, Bregovic também deixou a sua marca no teatro. Entre 1997 e 2001 juntou-se ao encenador Tomaz Pandur nas peças “Silêncio dos Balcãs” e “Divina Comédia” e, em 2004, terminou a sua primeira ópera “Carmen de Bregovic com um Final Feliz”. A produção multimédia “Planeta Azul”, de Peter Greenaway, apresentada em Macau em 2012 também inclui música de Bregovic, oferecendo ao público uma boa dose musical à moda do Leste europeu.

Mudar de vida

Em 1985 Bregovic anunciou o seu afastamento da música rock e passou os 10 anos seguintes nos bastidores, longe da ribalta. Só regressou aos palcos em 1995, depois de ter formado uma extensa orquestra de 120 elementos. Em 1997 reduziu-a a 50 músicos (às vezes 20 para facilitar espectáculos ao vivo). Inspirado nas bandas de música das aldeias da Europa de Leste, decide formar a Orquestra de Casamentos e Funerais para interpretar as suas próprias composições. Sob a sua direcção, a banda ganhou popularidade quando entrou em digressões e deu concertos em conhecidas salas de espectáculo em todo o mundo. O grupo destaca-se com uma mescla ecléctica de banda cigana, vozes búlgaras, percussão tradicional, cordas e guitarra eléctrica, criando música que percorre a escala das emoções humanas, do romance, paixão, tristeza e alegria à loucura sem limites. Posteriormente, os seus inúmeros álbuns a solo também se tornaram imensamente populares. Bregovic colaborou com músicos pop de diversas origens incluindo Iggy Pop, Ofra Haza, Cesária Évora, Scott Walker, Setzen Aksu, George Dalaras e os Gypsy Kings.

Champanhe para Ciganos

Bregovic traz a Macau os acordes electrizantes da sua Orquestra de Casamentos e Funerais num concerto que junta músicos oriundos de todos os cantos dos Balcãs. A orquestra inclui uma banda cigana de seis elementos, um ensemble tradicional feminino de vozes búlgaras, um coro ortodoxo masculino e um quarteto de cordas. Vão interpretar temas do mais recente álbum “Champagne for Gypsies” bem como outros sucessos de um percurso de fazer inveja. Este trabalho pode ser considerado como uma mostra retrospectiva de Bregovic enquanto músico. Como ele uma vez referiu, “O meu álbum é uma resposta à pressão extrema que os ciganos têm sofrido na Europa… os ciganos não são um problema deste mundo – eles têm sido sempre um dos talentos deste mundo. Neste concerto faço uma homenagem ao seu talento que tem inspirado compositores ao longo dos séculos”. Segundo se diz, quem frequenta os concertos deixa a sala a suar, porque a banda agita o espírito bailarino das pessoas, e assim que começa a tocar, o público entra em delírio. Tal como Bregovic uma vez disse, “quem não entra na loucura, não é normal!”.

*Colunista Musical e proprietário da Pintomusica

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