Tirem-me tudo menos o Gini

Inês Santinhos Gonçalves

Pelo menos quatro pessoas vieram duvidar dos resultados do recém-calculado coeficiente de Gini – o economista Albano Martins, o provedor da Santa Casa da Misericórdia António José de Freitas, o secretário-geral da Caritas Paul Pun e o professor de serviço social do Instituto Politécnico de Macau Larry So.

Porquê? Além de algumas lacunas nos dados apontadas por Martins, todos chamam a atenção para algo que consideram evidente, ainda que empírico: a vida é hoje significativamente mais cara do que há cinco anos e os aumentos, quando os há, não acompanham essa tendência. Ainda que os apoios do Governo tenham aumentado, há mais gente a ver o seu orçamento familiar encolher – António José de Freitas fala mesmo de “famílias escondidas” que “estão a passar por dificuldades”. Larry So sublinha que “o índice de Gini não reflecte o que as pessoas sentem e isso é mais importante que números”.

Numa era em que nos garantem que os números não mentem, como explicar esta disparidade? Os números dos Serviços de Estatística e Censos dizem mesmo que os agregados familiares com rendimentos mais baixos viram as suas receitas reais subirem 41,8 por cento nos últimos cinco anos e que a diferença entre os mais pobres e os mais ricos estreitou de 8,2 vezes para 7,2 vezes – os agregados familiares do quintil mais baixo deixaram de contar com receitas de 8115 patacas para passarem a ter 11.509 patacas. Será então que, como diz António José de Freitas ao Jornal Tribuna de Macau, os grandes afectados são a classe média, já sem a mesma folga orçamental de antes? Ou como afirma Larry So, os que, não sendo pobres, apenas conseguem tirar férias uma vez por ano “e não podem ir para longe”?

Parece que não. Ao canal chinês da Rádio Macau, Paul Pun alertou para um maior fosso entre ricos e pobres e garantiu que os aumentos para as famílias de rendimentos mais baixos têm sido insuficientes para fazer face à inflação e custos de habitação. Não se pode dizer que Paul Pun esteja alheado da realidade de Macau.

O que se passa, afinal? Como podem os números contrariar as evidências? Será da forma como foram feitos os inquéritos? Como foram tratados os dados? Será que a realidade ultrapassa aquilo que observamos no supermercado, nos restaurantes, na hora de pagar a renda, o combustível, a conta de telefone e a escola das crianças? Será que a realidade não condiz com as nossas contas bancárias, testemunhas de uma não autorizada dieta da margem de poupança? Estaremos perante uma distopia dos orçamentos familiares?

Não sei. Mas nesta altura em que se aproxima o fim do mês, uma altura sensível para as carteiras em geral, tenho a certeza que a população de Macau se sente reconfortada por saber que, pelo menos em números, estamos mais ricos e que essa riqueza está mais bem distribuída. Valha-nos isso. Valha-nos a nós e valha ao Chefe do Executivo, que um Gini mau em ano de eleições era um Gini para ser enfiado, à força, dentro da lâmpada.

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