Notas desconjuntas

Filinto Elísio

Poeta e cronista

 

Vejo, pela televisão, a entrevista do poeta Manuel Alegre, agora que, em homenagem aos 40 anos do 25 de Abril, lança o livro de poesia “País de Abril”. Alegre, ilustre personalidade contra a tirania, diz que muitos dos seus versos, escritos em plena ditadura do Estado Novo, fazem de novo sentido em Portugal. Faz ele, diante de tanta reversão contra as políticas sociais e tanta austeridade a atravessar a dignidade das pessoas, um paralelismo ousado e corajoso sobre agora e outrora. O poeta exorta a celebrar a Revolução dos Cravos, hoje como nunca, com semântica consequente. Sem o significante que mascare, por neblina e/ou alguma poluição, o significado da História. Ou a cor moral da poesia.

Em sentimentos desconjuntos, ponho-me a pensar no depoimento perante a Comissão Nacional da Verdade do coronel reformado Paulo Malhães, um dos torturadores durante a ditadura militar brasileira. Um jornalista atravessou o silêncio e perguntou: “Você não se arrepende?” ao que Malhães respondeu com lacónico sorriso, para depois falar sobre a Casa da Morte de Petrópolis, um centro clandestino mantido pelo regime militar no início da década de 1970.O coronel fez revelações detalhadas, mas sem dar nomes aos seus comparsas nem números às suas vítimas.Confirmou ter torturado “uma quantidade razoável” de pessoas, ter matado “alguns” e ter mutilado corpos para impedir sua identificação caso fossem encontrados. Parecia personagem das narrativas de Albert Camus.

Ponho-me também, distante, um tanto alhures, a pensar nos 20 anos do genocídio de Ruanda. De como uns contra os outros, por razões explicadas, mas jamais compreendidas, puderam realizar assaz carnificina humana. Ponho-me a pensar nas causas sob a neblina, aquelas que não se descortinam nas nossas travessias. Leio sobre histórias dantescas durante os 100 dias que abalaram o mundo no Ruanda e que, por enigmáticos silêncios, a própria comunidade internacional em cúmplice silêncio. Os tais silêncios que, por algum tempo, permitiram a barbárie de Hitler e a barbárie de Estaline. Os tais silêncios que nos gritam cá dentro e questionam a kantiana humanidade que afinal deveríamos portar sempre nas nossas viagens. Será da poluição?

Ponho-me ainda a pensar em Américo “Xclumbumba” Fortes, animador infantil caboverdiano, creio que desconhecido do leitor de Macau, vítima da brutalidade policial no passado dia 23 de março, na ilha do Fogo, em Cabo Verde. Porque escrevo isso? Para denunciar essa barbaridade, não mais que isso, já que a desumanidade não é apenas a sua dimensão, mas sim a sua intenção. Xclumbumba esteve internado em estado grave e com problemas de visão. Denunciou ele que os agentes foram mais violentos quando o ouviram a falar “badiu”. Na esquadra policial, ter-lhe-ão dito: “Ali nu ta mostrou que bô sta na Fogo”. Dias depois, o animador infantil foi apresentado ao Tribunal da Comarca de São Filipe e foi-lhe aplicado Termo de Identidade e Residência, como medida de coação. Uma vergonhosa neblina. Ou tão-somente deslocada poluição.

Para sair deste registo absurdo, refaço as minhas lembranças. Eu cheguei a Macau de jetfoil, indo por Hong Kong. Era uma tarde cerrada de neblina e/ou de muita poluição, tanta que, a meio do caminho, nem dava para descortinar a terra de origem e a terra de destino. Pela escotilha, viam-se barcos, esparsos barcos, que me faziam o meu imaginário engendrar as navegações, as rotas, a pirataria e os tráficos de outrora. O meu pensamento, sempre muito onírico, projetava na tela da distância cenários de ópio e de seda, o giro comercial intenso do Mar da China, a casa dos Budas ditosos, o idealizado dragão dos desfiles, os pratos de Cantão e os vasos de Zhurai. O meu pensamento, enquanto sulcava as águas, recitava uns versos quaisquer. Já não os sabia, se meus ou de um dinástico poeta chinês.

E, por falar em poesia, Manuel Alegre escreveria assim num texto: “Talvez esta palavra revolução possa remeter-nos para a geração de 70, se nos lembrarmos que Antero de Quental escreveu para acompanhar as suas Odes Modernas um breve ensaio ou nota ´sobre a missão revolucionária da poesia´, não se esquecendo de aí se referir a Proudhon. No entanto esta geração, muito sensível a um ideal humanista, nunca fez uma verdadeira distinção entre política e ética; Antero declara mesmo que o seu livro pretende ´dar à poesia contemporânea a cor moral´.”

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