Judas e Jesus, uma perigosa cumplicidade (I)

[Arqueologias da memória]

 

Rui Rocha*

Jorge Luis Borges, no seu ensaio de 1944 “Três versões de Judas” (Obras Completas, vol I, p.534), convida-nos a uma reflexão interessante sobre a verdadeira natureza da “traição” de Judas Iscariotes. No ensaio de Thomas de Quincey Judas Iscariot (1852) em Theological Essays and Other Papers, 2005, p.103, também citado por Borges, pode ler-se o seguinte: “Everything connected with our ordinary conceptions of this man, of his real purposes, and of his ultimate fate, apparently is erroneous. That neither any motive of his, nor any ruling impulse, was tainted with the vulgar treachery imputed to him, appears probable from the strength of his remorse”. Borges relendo Nils Runeberg, um autor norueguês fictício por ele criado, sugere que a traição de Judas não foi casual, mas sim um feito predeterminado que tem o seu lugar misterioso na economia da redenção. E acrescenta: “Judas, único entre os apóstolos, intui a secreta divindade e o terrível propósito de Jesus. O Verbo tinha-se rebaixado à condição de mortal; Judas, discípulo do Verbo, podia baixar-se à condição de delator (o pior crime que a infâmia suporta) e a ser hóspede do fogo que não se apaga. A ordem inferior é um espelho da ordem superior; as formas da terra correspondem às formas do céu; as manchas da pele são um mapa das incorruptíveis constelações; Judas reflecte de qualquer modo Jesus. Daí os trinta dinheiros e o beijo; daí a morte voluntária, para merecer mais ainda a Reprovação. Assim esclareceu Nils Runeberg o enigma de Jesus”. Žižek, no seu livro “A Marioneta e o Anão” (2006, p.22) questiona: “visto que a sua [de Judas] traição era necessária para levar a cabo a sua [de Jesus] missão (redimir a humanidade pela morte na cruz) não precisava Cristo dela? As suas palavras inquietantes durante a Última Ceia não serão uma intimidação secreta endereçada a Judas para que ele o atraiçoe? «E, respondendo Judas, aquele que o traía, disse: Porventura sou eu, Rabi? Ele disse «Tu o disseste» (Mateus, 26:25)”. Žižek questiona-se se Judas não será, por conseguinte, o supremo herói do Novo Testamento, aquele que está disposto a perder a sua alma e a ser o eternamento danado para que o plano divino possa realizar-se.

Normand Abécassis, professor de filosofia comparada na Université de Bordeaux III, no seu livro Judas et Jesus, une liaison dangereuse (2001) que inspirou o título do texto de hoje, restitui-nos, na sua perspetiva, a verdadeira história de Judas, na sua época e no seu espaço, a partir dos escritos hebraicos originais, revelando uma implícita cumplicidade entre o mestre e o apóstolo maldito. Jesus, na opinião do autor, ao estender um pedaço de pão a Judas sabia que este o iria libertar a fim de que pudesse ser reconhecido na qualidade de Messias. Assim, aceitou naturalmente a comunhão conjunta dos 12 apóstolos sem romper a sua unidade em torno do mestre. Jesus foi crucificado nesse dia e Judas morreu tragicamente também nesse mesmo dia. Na vida e na morte, relevou-se a forte ligação que unia o verdadeiro apóstolo ao seu mestre, ao seu Rabi. Judas foi sempre o discípulo preferido de Jesus, o único entre os apóstolos a não duvidar que Jesus era realmente o salvador universal. Pedro, ao invés, duvidou e negou três vezes conhecer Jesus.

Como afirma ainda Abécassis, por detrás das estratégias teológicas mais ou menos reveladoras das forças sociais, políticas e psicológicas que ingenuamente as sustentam, e para além dos fantasmas construídos em torno de Judas, torna-se necessário uma elucidação do desafio desta história dececionante.

(continua amanhã…)

 

*Director do Departamento de Língua Portuguesa e Cultura dos Países de Língua Portuguesa da Universidade Cidade de Macau

 

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s