Escravos e poetas

[Travessa das Verdades]

 

Inês Santinhos Gonçalves

Cruzei-me este fim-de-semana com o antigo programa da RTP “Conversas Vadias” com Agostinho da Silva (um minuto de silêncio em memória da televisão portuguesa). Não há nada mais atormentante que começar a semana a ouvir um filósofo que eleva a liberdade como a mais importante qualidade do ser humano. Sim, somos todos escravos, mas os que o são a um domingo soalheiro sofrem certamente mais que os outros.

É impossível não transportar as palavras de Agostinho da Silva em 1990 para o presente. Não só pelas previsões que faz sobre Portugal como pelas considerações acerca do futuro do ser humano. Será injusto dizer que somos hoje mais escravos do trabalho do que fomos no passado, mas seremos certamente mais conscientes disso. Somos mais ambiciosos em relação ao que é o ideal de vida, temos mais expectativas em relação à Felicidade.

Numa inesquecível entrevista com um mui jovem Miguel Esteves Cardoso (oh, aqueles óculos, oh aquele cabelo), Agostinho da Silva defende que “toda a vida quotidiana e material deve ser inteiramente grátis”. Isto para que o homem possa cumprir o seu desígnio: ser poeta, que é como quem diz, ser criador. O filósofo considerava uma “contradição terrível” o “nascer-se de graça e ter que continuar a vida ganhando-a” e acreditava que no futuro a humanidade evoluiria para um estado de desemprego generalizado – um desemprego que liberta para a criação, que desagrilhoa das obrigações.

Impossível, diz Miguel Esteves Cardoso. O homem sempre foi e será escravo e poeta ao mesmo tempo. “Avança a ciência e avança a tecnologia, e o seu sonho de futuro é continuar a ser o escravo que a maior parte da gente é hoje no mundo, quando podia ser o poeta que nasce e poeta inteiramente livre??”, indigna-se Agostinho da Silva, perante o sarcasmo pueril de Miguel Esteves Cardoso. “Temos de nos libertar. Não aceitarei nunca que seja nítido no mundo que somos escravos. Somos poetas livres”, remata.

Somos poetas livres. Deixei que esta frase me ecoasse na cabeça todo o fim-de-semana, enquanto fazia as compras do supermercado, lavava a loiça, pagava contas, lia jornais, mandava e-mails, pensava culposamente que não tinha ido ao ginásio, e antecipava mentalmente a semana laboral que se avizinhava.

Somos todos poetas livres. Como seria bom passar um ano a viajar, confrontar-me com o estranho, absorvê-lo, crescer, escrever mais, escrever algo que fique. Ajudar, ser realmente útil, comover-me com a imensidão e diversidade da humanidade. Como seria bom ler mais, cozinhar mais, matar as saudades dos que estão longe. Ver os clássicos do cinema que nunca vi, estudar, comprar flores lá para casa. Ter uma casa em Coloane, aprender cantonês, cumprimentar o merceeiro até que ele soubesse o meu nome.

Somos todos poetas livres. Talvez só o possamos ser um dia, porque não o somos hoje. Será essa uma das contradições do ser humano, não saber apreciar as dádivas sem antes ter sentido as agruras. O sonho de Agostinho da Silva era belo, sim, mas eu só me empenharei num projecto, numa criação de poeta, se souber o que é viver sem ter essa possibilidade. Só a adversidade me dá essa força, tal como o prazer de uma tarde de sol com um livro se evidencia pela sua raridade.

Se todos os homens nascessem com a liberdade – o tempo, a paz e o dinheiro – para criarem o que quisessem, será que o fariam? Homens que não soubessem, se não pelos livros de História, o que são dias de trabalho de 12 horas, será que seriam mais poetas? A preguiça, a inércia e a dormência são grandes inimigas da liberdade. Assim como o cansaço e a sobrevivência. Faz-nos falta Agostinho da Silva para desfazer o dilema.

 

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One thought on “Escravos e poetas

  1. António Madeira says:

    Saudações.
    Permita-me que comente este seu interessante texto acerca desta entrevista que ficou para a história da televisão portuguesa, a meu ver, e infelizmente, não pelos melhores motivos. Isto porque para haver um diálogo frutuoso, há que haver respeito, o que claramente não houve de uma das partes, talvez devido a um ego exacerbado próprio da idade.
    No entanto, uma fonte viva jorra de dia ou de noite, com chuva ou com sol, e um dos pontos fulcrais da prosa de Agostinho da Silva neste episódio foi precisamente essa utopia de que o Homem poderá ser poeta e não mais escravo. Como Agostinho dizia, uma utopia é apenas uma ideia que ainda não existe. Mas é uma ideia que se depara precisamente com esse dilema que tão bem descortinou e sobre qual permita-me opinar.
    Agostinho da Silva sabe perfeitamente da existência desse dilema. Conhece bem a História e a natureza humana para ter certamente reflectido sobre ele. Na minha opinião, a liberdade de que ele fala só é liberdade se houver conhecimento, se houver responsabilidade pelos seus actos e se houver um reconhecimento no outro ao ponto de querermos que também ele seja livre. O processo de que fala da adversidade à estima do momento, dada a natureza humana, tem de ser uma conquista. A questão é que para lograr essa conquista, é preciso ter liberdade. A liberdade de podermos crescer, cair, errar, e levantarmo-nos sem os grilhões sociais, culturais, educacionais e, por muito que nos custe, físicos.
    Eu diria, baseado no exemplo de Agostinho, que o Homem nasce poeta, mas que tem de descobrir que é poeta. Ele, o poeta Agostinho, defendia acima de tudo que todos tivessem o direito e a possibilidade de alcançar esse propósito.

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