O ritual do Cheng Ming

Iris Lei

 

“A chuva miudinha não pára de cair no festival de Cheng Ming”. É assim no poema de Du Mu, que quase toda a gente conhece, e de que se terá lembrado quando do céu choveram rios de água alguns dias antes das festividades. O poeta do final da dinastia Tang não costuma falhar a previsão, anualmente, mas desta fez foi excepção, tornando as visitas ao cemitério mais agradáveis.

O Cheng Ming não é para mim como outras festividades, nas quais se trata de celebrar. Quando era mais nova, havia trabalho duro para fazer: acordar bem cedo de manhã, visitar os túmulos dos diferentes membros da família e aguentar o fumo que saía dos paus de incenso e da queima de “dinheiro”. Mas os preparativos eram divertidos.

Era-me pedido que preparasse o dinheiro para queimar – a moeda que circula no mundo após a vida. Um papel grosso de formato quadrado e artesanal, com um outro quadrado metálico dourado ou prateado ao centro – estava quase pronto o dinheiro-fantasma. Depois ajeitava-se o papel para que ficasse com a forma de um cilindro, com as duas pontas viradas para dentro – e ei-lo então.

Naturalmente, há hoje artigos bastante mais sofisticados com os quais agradar aos antepassados. Desde a criação dos smartphones, demo-nos conta de que há formas mais alternativas de “contactar” com os que nos são queridos. Para além disso, há roupa de marca e sapatos, tabuleiros de mahjong, criados, carros, refeições que incluem fondue de abalone, vegetais, camarões, sopa, tacho de carnes e vegetais, tudo pronto a comer e feito de papel.

Eu e a minha família, no entanto, não oferecemos smartphones aos meus avós, já que sabemos que não conquistariam a tecnologia sem um livro de instruções. Portanto, só vamos oferece-los quando também estiverem à venda as instruções. Além da comida de papel, a aguardente e comida à sério também são necessárias aos rituais.

Curvamo-nos, oferecemos três paus de incenso e espalhamos o álcool no chão – à entrada do mundo dos antepassados, sussurramos aquilo que queremos dizer-lhes. Tal como antes, partilhamos a refeição juntos – comemos carne de porco assada e eles comem o incenso e bebem a aguardente. Antes de partirmos, o meu pai acende três cigarros – os favoritos do avô – e panchões, e despede-se com um “vemo-nos no festival de Chong Yeong”.

 

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