“Não tenho deficiência mental – reflectir sobre a educação de Macau na perspectiva de uma estudante cega”

Kam Sut Leng*

Li recentemente uma terrível notícia no jornal (1): uma aluna de um colégio para raparigas, após algumas noites de estudo durante a noite, deu-se conta de sofrer de retinite pigmentosa, doença cujos sintomas são a perda de visão nocturna, visão em túnel e imagens desfocadas. A doença é degenerativa e incurável.

Aquilo que é chocante nesta história é que a escola desta aluna não apenas não prestou qualquer apoio, como também o sistema burocrático de avaliação do Centro de Ensino Especial da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) exigiu a alguém que não vê que contasse dinheiro, resolvesse um puzzle, preenchesse um questionário e contornasse barreiras… Alguém que não vê é incapaz de realizar estas tarefas. O resultado da avaliação foi o de que a estudante era portadora de deficiência mental!

Para não referir a falta de sentido da avaliação que prejudica imenso esta estudante, a escola, num momento tão desesperante, abandonou-a, ditando uma sentença de morte. Tal não aconteceu porque tivesse má conduta ou não trabalhasse arduamente, mas porque trabalhava demais.

Quando uma instituição educativa leva a sua missão a sério, apoiando cada estudante e cultivando a próxima geração de Macau, o prestígio segue-se naturalmente, e não ao contrário – perseguindo o prestígio como resultado e ignorando o mais simples e melhor ideal de educação.

Muitas escolas de Macau concentram-se no desempenho dos seus alunos nos exames de acesso à universidade e no objectivo de superarem outros estabelecimentos nos resultados PISA, mas esquecem-se do verdadeiro significado da educação! É fácil desistir de um aluno: este abandona a escola, problema resolvido. Sem estes “obstáculos”, o desempenho médio da escola sobe. Mas quantos estudantes são sacrificados neste sistema de educação de prioridades subvertidas?

Acredito verdadeiramente que cada criança é um presente dos céus para a sua mãe. Cada palavra da escola, cada decisão que é tomada pela instituição, tem um impacto profundo nos alunos. Por isso, apelo a todos os estabelecimentos educativos para que nunca desistam de um aluno levianamente.

*Professora

 

 

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