Levantar a bruma

Inês Santinhos Gonçalves

“Não era suposto que a minha vida fosse tão difícil”. Às vezes a clareza chega-nos com uma frase. Para Scott Neeson, a frase foi esta, proferida por uma estrela de Hollywood, ao telefone. Enquanto ouvia o actor queixar-se do entretenimento a bordo do jet privado, o executivo da Sony Pictures olhava para o cenário à sua volta: estava na capital do Camboja, rodeado de lixo em decomposição e de crianças doentes e cobertas de feridas, cujo trabalho era catar toda aquela porcaria em busca de algo valioso.

Há momentos assim, em que o alinhamento de uma série de factores levanta a bruma da realidade. E quão obscena pode ser a realidade. Nesse momento Neeson decidiu que já tinha arrecadado dinheiro suficiente e era tempo de abdicar do Porsche, do iate e das supermodelos. Tinha-se tornado insuportável lidar com pessoas que consideram uma provação não ter o Braveheart disponível a bordo. O australiano lançou mãos ao trabalho e fundou a Cambodian Children’s Fund, uma organização não-governamental que hoje apoia cerca de duas mil crianças e jovens cambojanos, com idades entre os cinco e os 23 anos, e as suas famílias. Com o seu esforço, Neeson conseguiu criar cinco residências, infantários e escolas que apoiam as crianças que trabalham nas lixeiras. Alimenta cerca de um milhar de jovens e organiza cursos vocacionais para os mais velhos. A lista continua.

Era domingo e eu lia sobre a história de Scott Neeson no South China Morning Post, enquanto lá fora o dia se desfazia em chuva. Qualquer preocupação que me assolava naquele momento me pareceu ridícula.

Pensei em Macau, no Sin Fong Garden, nos anteneiros, nos cheques, nos subsídios na Fundação Macau, na maldita plataforma. Pensei nas escolas que fecham, nos abrigos de Inverno, nos velhos de roupa suja e sacos de plástico, na pobreza pouco escondida que insistimos em ignorar. Também Macau é obscena. Na sua luta contra os panfletos “pornográficos” e reacções de virgem ofendida a acusações de tráfico humano e exploração sexual de menores. Nos salários das empregadas domésticas que não têm direito a ter os seus filhos por perto. É obsceno o consenso e a harmonia. É obscena a infantilização dos cidadãos e o incentivo ao egoísmo. São obscenas as sonoras festividades do Dia da Criança em plena homenagem ao massacre de Tiananmen que alguns obscenamente ainda apelidam de incidente.

É obsceno o culto ao dinheiro num país e num continente assolado pela pobreza. A história explica muitas coisas, mas não desculpa tudo. Antes de nos queixarmos devíamos pensar se a nossa vida é realmente assim tão difícil.

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s