Sétimos

Márcia Souto

Cronista


“E, no Sétimo Dia, Deus descansou; o mundo estava criado” conta-nos o livro do Génesis. Por outro lado, no Apocalipse, o Sétimo Selo vem encerrar a vida. Numa ótica ou noutra, o certo é que, dentre os vários planos que a existência nos propõe, dois carregam imensa inexorabilidade: a vida e a morte, que, de complexo e caótico, imbricam-se absolutamente. Estes dois naipes de Sete são relevantes para quaisquer abordagens sobre a existência, buscando interpor no ideário do infinito, transversal pelas culturas diversas, uma espécie de princípio e de fim, algo que encerra gritante contradição e, por isso, sussurrante beleza.

Após uma noite de sonhos e pesadelos, delírios e calmarias, em muito pelas notícias de que afinal o voo MH 370, da Malasya Airlines, terminara no Índico, abre-me o dia uma correspondência em que, roseanamente, é-me narrada a “estória” que aqui compartilho e motivo do intróito acima.

Mãe de primeira viagem, com malas e roteiros muito bem organizados, ela amamentava com gozo o filho Veredas  (eu bem avisei que era uma estória à Guimarães Rosa), até que se apercebeu de que uma inflamação nas mamas a impediria de continuar a amamentar o bebé. Instaura-se-lhe uma estranha inquietude. Como abrir mão deste maravilhoso espetáculo que é o ato de dar/doar vida?

Enquanto isso, do outro lado do Sertão, uma centenária mangueira, majestosa no quintal, morre, abruptamente, por “decapitação” engendrada pelo forte e amorável morador daquela casa. Era ele que, desde sempre, cuidava daquela árvore com quem (e ainda com a qual), na centralidade do jardim dos fundos, em bons-dias e boas-noites, desfaziam-se diálogos frutíferos. Numa manhã, após a rega contumaz, o homem põe fim àquela relação de “amorizade”: um sopro no coração sentenciava-o à morte.

Esses dois episódios, planos de narrativas altamente existenciais, têm um dos seus pontos de interseção o fato de a mãe que se vê diante da angústia do choro do filho ser ela, por sua vez, a filha do homem que traça o destino da árvore. Era ela a encruzilhada dos dois naipes de Sete no cerzir da existência.

São narrativas que tocam e que se tocam profundamente, já que, sabemos todos, a morte faz parte da vida e esta integra-se naquela, sendo que ambas se articulam no infindo mar da existência. Diante desses pulsares, como não me emocionar com a montagem da criação que grita através do choro do bebé que só se cala ao acalento da mama(ã)?

Como estar insensível à força da morte iminente que, em lucidez e loucura, no desmontar da criação, cometimento de amor e por compaixão?

São inúmeros os mitos que equacionam morte e vida e, não raramente, sugerem saldos positivos, afinal a destruição nem sempre traz carga negativa, podendo, inclusive, ser construtiva.

Uma das versões do mito egípcio de Osíris remonta a vida que surge após sua morte. Por ciúmes, Set esquarteja o irmão e espalha as partes do seu corpo pelo país. Iris, a esposa de Osíris, sabendo do ocorrido, vaga pelo Egito a recolher fragmentos do seu amado, a fim de reconfigurá-lo, o que acaba por acontecer, selando-lhe a vida ressurecta por meio de um sopro de amor. Set, que me soa, em coincidência auditiva, a Sete, abre espaço para o ressuscitar, esse levitar depois da morte, qual o mito cristão da Páscoa.

Poderia aqui ainda passar por Lavoisier, para quem nada se perde, tudo se transforma, mas, permitam-me, queria solidarizar-me com a dona da narrativa que aqui dividi, mas também, e especialmente, com as mães e as filhas dos passageiros e tripulantes do fatídico voo MH 370, da Malasya Airlines, que perderem nesta semana o último sopro de esperança nas águas profundas do Índico.

Sendo a existência um prolongamento maior, o que dizer senão, com Guimarães Rosa, que as “pessoas não morrem, ficam encantadas”?         

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