Por uma casa mais ou menos

Inês Santinhos Gonçalves

 

A minha mãe sempre me disse que não se pode ter tudo. Ou isto ou aquilo, há que saber abdicar. Chamem-lhe herança católica ou técnica de preparação para vida, mas a verdade é que era assim.

Esta teoria era coisa que muito me desagrava. Se gosto das duas camisolas, porquê levar apenas uma? Se o dia tem 24 horas porque não hei-de conseguir estar em todo o lado? Considerava que esta era uma diferença fundamental de gerações. Com esforço e boa coordenação conseguiria, sim, fazer tudo o que queria, chegar a todo o lado, estar com toda a gente, ter tudo. O mundo havia de ser meu.

Este mês percebi que a minha mãe passou 20 anos a preparar-me para uma mudança de casa em Macau. As mães são dotadas não só de um sexto sentido apurado mas, sei-o hoje, de uma capacidade premonitória surpreendente.

Quando começamos a procurar casa em Macau, sabemos o que queremos: espaço (sem grandes devaneios, que não somos assim tão desfasados da realidade), luz, uma casa de banho fora da cozinha, alguns moveis simples, uma localização relativamente próxima do emprego e um preço adequado. Há ainda líricos que acrescentam um prédio com elevador, chão de madeira, varanda, uma banheira e vidros duplos.

É nesta altura que penso que devia ter prestado mais atenção ao que a minha mãe me dizia, talvez agora soubesse como escolher. Afinal, prefiro um aconchegante chão de madeira que não me faça a sala parecer uma casa de banho ou prefiro uma banheira onde possa relaxar num domingo chuvoso? Prefiro estar perto do trabalho e ouvir os carros a passar o dia inteiro ou estar na paz do senhor e a dois autocarros do centro? Prefiro gastar menos numa casa mais pequena, desconfortável e longe e ter dinheiro para uns passeios ou gastar metade do meu salário numa casa mais bonita onde provavelmente terei de passar as férias?

Pois é, armei-me em adolescente rebelde e agora não sei lidar com as adversidades que o mercado imobiliário me apresenta. Espero que os jovens de Macau estejam mais preparados que eu – isto se alguma vez tiverem de passar pelo doloroso processo de arrendar uma habitação em Macau. É possível terem agências imobiliárias a dizerem-vos que o vosso orçamento, de dois dígitos, é demasiado baixo para se darem ao trabalho de procurar casa. Convençam-se também que vão pagar consideravelmente mais do que esperavam e claramente mais do que a casa vale – esse valor será multiplicado por quatro e entregue de uma só vez na mão do agente imobiliário. Nunca é tarde para ouvir os conselhos de uma mãe.

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