O ritmo do desenvolvimento

Iris Lei

É um cliché começar uma discussão sobre o aumento incessante das rendas em Macau porque toda a gente se identifica com isto: na habitação, lojas, parques de estacionamento, e estou certa de que podemos ir mais longe. O aumento súbito das rendas ajuda-nos a “compreender” com maior facilidade as mudanças frequentes nas lojas. Mas, ainda assim, fico surpreendida com o facto de, no meu bairro, uma ter fechado, outra estar prestes a fechar e uma terceira ter mudado de negócio. Apercebi-me de tudo isto depois de ter regressado a Macau após uma viagem de 13 dias.

É um espaço grande. Nunca sei o quão grande é porque está sempre cheio com todo o tipo de coisas. É o supermercado que vende os produtos mais baratos na zona, disse o Conselho dos Consumidores. É o supermercado onde os trabalhadores nos cumprimentam ainda que só passemos à porta. É o meu supermercado, no sentido que estou familiarizada com todo o tipo de produtos, o que tem e os outros não têm. Os trabalhadores dizem-me que o fecho não está directamente relacionado com a renda, é porque vender a loja é mais lucrativo do que vender “produtos baratos”. Seja porque razão for, o supermercado deixou de funcionar desde 1 de Março.

Lembro-me que, das vezes em que precisei de comprar decorações festivas ou máscaras à última hora, aquela loja foi a minha primeira escolha. Lembro-me também, claro, de uma tarde de ócio que passei lá, deslumbrada com aqueles produtos únicos, a mobília e adereços que dificilmente podem ser encontrados na cidade – já para não falar daquela agradável essência aromática espalhada pela loja. Os trabalhadores dizem que o aumento da renda é uma das razões para o fecho, terminando este mês uma relação de 12 anos com Macau.

A terceira loja é o caso mais recente, vende snacks e bolas de peixe desde o final do ano passado. Já não reconheço nenhuma cara. Começaram por vender marisco de luxo, num espaço visível tão grande quanto um cubículo de uma casa-de-banho decente num casino.

Sou uma residente antiga da Taipa que gosta muito dos tempos anteriores ao seu “desenvolvimento”. Naqueles dias, quando havia apenas lojas de Macau, conhecíamos quase todos os donos e eles também conheciam os nossos pais. Hoje, estas lojas estão a ser substituídas por cadeias de grande escala, que é possível encontrar em qualquer outro lado do mundo. Começo a adaptar-me à forma como os negócios mudam um bairro, mas mudanças que acontecem em duas semanas estão fora do meu alcance. A última coisa que quero é que duas cadeias de restaurantes ocupem os poucos espaços grandes disponíveis nesta área.

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