Sem-abrigo na cidade rica

[Um quê de quoi]

 

Cláudia Aranda

Ontem foi o último dia do concurso para residentes que, preenchendo uma série de requisitos, poderiam habilitar-se à compra de uma casa económica, um apartamento modesto, ali para as bandas da Taipa e de Coloane, o pulmão verde de Macau que deixou de o ser.

Ontem foram 3500 a tentar a sorte. No total houve 42 mil candidaturas para menos de duas mil fracções disponíveis. Quase nenhum daqueles candidatos a casa económica tem hipóteses de vir a conseguir a chave de um apartamento, conforme é notícia hoje neste jornal. É mais a  procura – muito mais – do que a oferta agora disponibilizada pelo Instituto de Habitação.

Será que estamos em risco de nos tornarmos sem-abrigo numa cidade rica, com um PIB per capita acima das 697 mil patacas?

Dizem que não há falta de casas em Macau. Há milhares de casas compradas, apartamentos vazios, que permanecem desabitados, eternamente abandonados. Em 2012 falava-se em dez mil fracções vazias em Macau e outras duas mil na Taipa, cujos proprietários o Governo poderia encorajar a recolocar no mercado de venda ou de arrendamento.

Já em 2012 falava-se em aplicar um imposto sobre estas casas. Esta ideia do imposto partia do princípio de que era um desperdício construir para depois não usar a habitação para o fim a que se destinava.

Tenho dúvidas que a solução para a habitação passe só pela construção de mais casas, quando já há tantas que não são usadas e permanecem fechadas, num lugar como Macau onde a negociação para crescer e construir mais aterros se faz em Pequim e onde ninguém faz frente nem põe mão nos especuladores imobiliários.

O Governo se quiser mesmo resolver o problema da habitação só precisa de mostrar um bocadinho de talento. Pode fazer um levantamento de todo o património aparentemente devoluto e abandonado – e há muito na zona histórica e industrial – reconstruí-lo e transformá-lo em habitação, mantendo a traça histórica original.

O Governo pode assumir o papel de senhorio dessas casas devolutas e reabilitadas ou delegar esse papel numa entidade credível capaz de recolocar essas casas no mercado de arrendamento a preços justos e controlados. Todos ficariam a ganhar: ganhavam os habitantes, que passariam a ter acesso a casas pagando rendas razoáveis, ganhava o património, que ficaria valorizado, ganhavam os turistas, que poderiam distribuir-se por mais espaços reabilitados da cidade e ganhava o Governo que passaria a ter um mecanismo para controlar os especuladores. 

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