Doci papiaçam com gente vizinha

Filinto Elísio

Poeta e cronista

 

Não poucas vezes, questiono-me, em diálogo com Márcia Souto, minha companheira de jornada, o que teria sentido Luís Vaz de Camões, poeta maior, então provedor dos defuntos e dos órfãos, mas sob “injusto mando”, algures por Macau. Dos escritos do poeta, no qual caminho fez um grande naufrágio, soçobram encontros a continuar, hoje, por quem a Palavra, ela acima dos atos, ainda seja a metáfora do amor à “gente vizinha”.

De vez em quando, pergunta-se sobre as leituras que se fazem por Macau destes textos. Sendo cada leitor um universo próprio, interroga-se como, em tanta quantidade (no caldeirão da pluralidade e da diversidade) quanto em qualidade (intercultural), haverá de se inferir das crónicas deste lado do mundo.

Quando, por encanto, conheci a China, levava o alerta pessoano porquanto “primeiro, estranha; depois, entranha”. Com olhos insulares, de terra pequena, o superlativo do “Império do Meio” e a velocidade com que o País vem para a linha de frente seriam, no mínimo, não fáceis de gerir. Confesso que a “ode triunfal” de Pequim, antes de me encantar, amassou um bocado. Depois, tive o prazer de ver as árvores imponentes dos caminhos, o sorriso singelo das crianças e o tremeluzir da própria megalópolis na boca da noite. Acabei rendido de paixão, mas sem perder a lucidez da razão.

Entrementes, Macau entranhou logo, cosmopolita e babel que me pareceu ao primeiro olhar. Naturalmente, estavam ali as diferenças, por sinal acentuadíssimas, mas ressaltavam à vista as semelhanças e as pontes comuns, ainda que ténues, da lusofonia. Não se pode negar haver em nós, uns mais acentuadamente que outros, a vertente identitária lusófona e como Macau, dir-se-á por alguma crioulidade não totalmente declarada, tem disso.

Confesso exaurir desse amor à primeira vista e desse quase sentir também pertença, no meio de tanta diferença, a emoção que me levou a ser cronista com e por Macau, tanto de muito entranhado, como de pouco estranhado, ao descer do ferryboat proveniente de Hong Kong. Mal pisando em terra macaense, balbuciava Márcia Souto, também cronista deste Jornal, os versos de Camões em como a “alegria não pode ser tamanha, que achar gente vizinha em terra estranha”.

Estando ainda em Macau, a amiga Carla Fonseca da Costa, luso-caboverdiana e italiana, em verdade, perfeita cidadã do mundo, não só nos apresenta a aguardente da Lourinhã, proveniente de uma das três regiões demarcadas de conhaque e aquela que surpreende pelas ossadas dos dinossauros, como nos leva a visitar as zonas históricas de Macau.

Era preciso perscrutar a vida para além dos casinos e dos sucedâneos da indústria do jogo e afins. Sentir como flui a vida noutras dimensões, pela voz de uma imigrante filipina e pela vez de um chinês, oriundo das terras do norte, por onde se lhe recorta a Grande Muralha. Apreender os aromas, os gostos dos vegetais e a destreza dos pauzinhos, a Márcia Souto, entre curiosa e generosa, a lembrar de Gilberto Gil que “a aranha vive do que tece”, em “Oriente”. Cronicar tudo, a quem interessar possa? A quem queira ler esse meu entranhar pessoano?

Os traços arquitetónicos, os marcos e as marcas estão ali presentes, numa parte da cidade que não é “terra estranha” em Lisboa, na Cidade Velha, em Salvador da Bahia e em Ouro Preto, na ilha de Luanda ou na ilha de Moçambique, tão pouco estranha na ilha de Fernão Pó e na ilha de São Tomé, nem em Goa, Damão, Diu ou Dilí.

E, com certeza, entre tanta “gente vizinha”, poucos a falarem o português e menos ainda o patuá, dizem, muito semelhante à Língua Cabo-verdiana, que também dá ares do que se fala no Ceilão, em Casamança, na Guiné-Bissau, em Aruba e Curaçau, não pode haver senão empatia, para não dizer apetência para a identificação, interculturalidade e intercompreensão. Só podendo ser “gente amiga”, quem tenha como um dos patrimónios imateriais, esse patuá – “macaísta chapado”, “crioulo de Macau”, “macaense” e “papia cristam di Macau”, que é o papear crioulo em Cabo Verde, na Guiné-Bissau e em Malaca, como o Papiamento, nas Antilhas, com identidades próprias, mas de raízes também lusófonas.

Mais tarde, num encontro com o advogado amigo Adelino Correia e a companheira, cabo-verdianíssimos da silva, em doci papiaçam, destilámos as nossas impressões e emoções sobre Macau e anunciámos ao casal as nossas intenções de escrever crónicas para “algum leitor” local.

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