Só para turista rico

Inês Santinhos Gonçalves

Nos últimos cinco anos, o preço médio dos quartos de hotel aumentou cerca de 77 por cento. De acordo com a Direcção dos Serviços de Turismo, em 2008, a tarifa média por noite era de 829 patacas, enquanto no final de 2013 esse valor atingiu as 1464 patacas. Isto num período em que foram criados quase dez mil novos quartos em hotéis do território.

Quando olho para estes números (absurdos, acrescento) não penso em grandes estratégias de captação de turistas nem propriamente nos ditos estudos sobre o grau de satisfação dos visitantes. Penso antes nos amigos e conhecidos a quem andei a mostrar a cidade em modo expresso, porque a visita ao território seria apenas de um dia. Ficar em Hong Kong – essa metrópole internacional, a Nova Iorque da Ásia – era mais barato e, de qualquer forma, fica-se mais perto do aeroporto. Sem puxar muito pela memória, lembro-me de pessoas que vieram da Europa, da Ásia e até de quem andasse a viajar o mundo. Ficar em Macau estava fora de questão, a não ser que alguém oferecesse um sofá caridoso. O preço de um hotel em Macau não era, definitivamente, proporcional ao atractivo da cidade, consideravam.

Claro que nenhuma destas pessoas desejava vir a Macau para jogar e isso talvez explique porque é que Macau não as quer. O aumento exacerbado dos preços dos hotéis, a par do aumento exacerbadíssimo de tudo o que integra esta cidade, serve apenas para definir de forma ainda mais exclusiva quem se quer a percorrer as ruas de Macau.

A tentativa de captar o chamado segmento de luxo não é, por si só, errada. Mas acontece que o perfil clássico desse turista não corresponde ao que a cidade oferece. Não há alta cultura em Macau, nem alta cozinha, nem espectáculos reputados, nem praias paradisíacas. Não há motivos para atrair magnatas à antiga. Restam-nos os outros. Os que ficam apenas uma noite porque o dinheiro não estica (apesar de às vezes se multiplicar) – os Serviços de Turismo já, por várias vezes, manifestaram vontade de inverter esta tendência. Temos também os muito ricos, que olham para Macau como um casino de larga escala – tudo o resto tem o valor das traseiras de um restaurante.

Com o andar da carruagem, apenas estes continuarão a visitar Macau. Todos os outros, os que usam mapa, tiram fotografias, lêem a história, experimentam a comida, vão ter de apanhar um barco de regresso. Ou então nem chegam a vir. Não vale a pena.

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