Mudei de sexo

[Pátio da Advinhação]

Sónia Nunes

Entre a comunicação da recandidatura de Chui Sai On a Chefe do Executivo e a participação dos delegados de Macau na Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (respirar) e na Assembleia Popular Nacional, a primeira semana de Março ficou marcada pelo concerto dos Rolling Stones – a banda que, já escreveu Miguel Esteves Cardoso, estará sempre connosco, assim como os pobres, o queijo flamengo e, acrescentámos nós, o ‘bacalau’. Keith Richards disse o impossível: “É bom estar aqui. É bom estar em qualquer lugar”. É com este lugar paralelo que sonho desde a minha primeira crise existencial que, sendo portuguesa, terá ocorrido quando comecei a falar e ficado mais grave na tentativa de distinguir  os verbos ser e estar.

Vou-me consumindo num estado melancólico provocado pela falta de qualquer coisa, com família e amigos a dizerem-me que sou daqueles que nunca vai ser feliz (se é isto que a gente mais chegada me tem a dizer, imaginem os inimigos). É esta nostalgia, esta tristeza que vem da saudade do quer que seja, que me arrasta, como está bom de ver, para a “Encantos”, a revista da Comissão dos Assuntos das Mulheres – vaga, elegante e fascinantemente antifeminista, tal como nos tempos da velha senhora, com a diferença que esta é nova.

As reacções à oficina intelectual de aprender as diferentes maneiras de amarrar cachecóis no 8 de Março pecaram por distracção. Ao explicar que o cachecol se coloca à volta do pescoço com jeitinho, fica subentendido que não deve ser usado para amordaçar ou para atar alguém. A Comissão dos Assuntos das Mulheres está, na verdade, a soltar amarras. Destaco ainda a sugestiva actividade de ‘preparo de bebidas especiais’ (uma tentativa de chegar a nichos de mercado ao deixar em aberto, por exemplo, o preparo do histórico chá de cicuta?) e, claro, o workshop ‘maneiras à mesa’ que teria calado muitos dos críticos caso a revista “Encantos” fosse mais divulgada, graças ao artigo de Van Iat Kio sobre a influência da Internet e da televisão à hora de jantar no “uso de drogas, tráfico de drogas e brigas entre gangues”. Imperdível, sobretudo na tradução para uma espécie de português.

Tenho apenas uma crítica a fazer aos carnavais das mulheres: a acreditar nos jornais (coisa que, por princípio, nunca se deve fazer) não houve qualquer oficina intelectual sobre o uso do batom, quando Kong Mei Fan foi pioneira a usá-lo como índice numa teoria económica pouco discutida. “Encantos”, página 21: “Em tempos de incerteza financeira, as mulheres não tiveram capacidade de comprar um artigo de maior custo, refugiam-se em produtos mais baratos, como o batom”. Mais. “Os colarinhos brancos que desejam ser promovidos, é melhor que tenham melhor aparência do que outras pessoas” – e andem sem marcas de batom na gola, acrescentamos nós.

Com reuniões ordinárias (sem desprimor para as plenárias), um orçamento de 400 mil patacas para este carnaval e uma revista, a Comissão dos Assuntos das Mulheres conseguiu o que nenhuma comissão da igualdade conseguiu por esse mundo fora: dizer que não há discriminação de género. Estão de parabéns, também pelos grupos de mulheres que criaram. Há as “mulheres de duplo papel”, as “donas de casa”, as “mulheres profissionais” (têm emprego, mas não cuidam nem da família, nem da casa), as “mulheres da nova geração”, as “mulheres solteiras de duplo papel” e as “mulheres solteiras sem emprego”. Resta-me concluir que, para franco espanto meu, não sou mulher. Mudaram-me de sexo. Algum dia tinha de acontecer quando se faz da identidade de género um produto cultural e político.

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