O Valor do Trabalho e as Formigas Aladas

[Sinologia portuguesa]

Ana Cristina Alves*

Os chineses não gostam de ser vistos como formigas, nem tão pouco de se sentirem formigas. Veja-se o que a este respeito nos diz Duan Dongtao (段東濤), escritor e artista de Shandong, na obra “A Survey of China’s Post-1980s Generation”  (2013), onde procura reflectir sobre os destinos sociais dos que hoje andam na casa dos 30. Diz-nos um dos casos apresentados na obra: “como trabalhadores sob forte pressão social, quer estejamos a trabalhar para garantir a nossa subsistência ou já tenhamos entrado num nível de trabalho que nos permita a concretização de certos sonhos, nenhum de nós é capaz de parar.” (2013:2)

Este é o ponto fundamental de toda a questão: a impossibilidade de parar de trabalhar, que impele os que assistem à incessante azáfama a catalogar os seres possuidores deste tipo de características, por analogia com o reino animal, entre as formigas ou as abelhas.

Só que as coisas se apresentam infinitamente mais complicadas na China actual do que à primeira vista possam parecer. A relação do chinês com o trabalho mudou radicalmente.

Longe vão os tempos em que o humilde trabalhador se contentava em ser apenas uma formiga, fazendo parte de um imenso grupo que apenas desejava sobreviver. Nessa época os assalariados não se importavam muito de ser pobres e era até uma honra receber uma magra tigela de arroz em troca do serviço prestado, como ilustra a tradição confucionista, bem resumida na história proverbial relatada por Mêncio 《孟子》, conhecida, numa tradução pelo sentido: “Ter Direito ao Seu Arroz” (Bu Chi Bai Fan不吃白飯) , nós diríamos, “ganhar o pão de cada dia com o suor do seu rosto”.

Pois bem, antigamente no País do Meio só merecia o arroz quem se tinha esfalfado de sol a sol a trabalhar na terra ou a consumir os belíssimos anos de vida no estudo dos Clássicos; mas o certo e fundamental, nos tempos em que imperou a ideologia confucionista (aos quais Mêncio já não assistiu), não era enriquecer, antes contribuir quer material, quer espiritualmente para a sociedade onde se estava inserido.

Muita água correu desde que um dos votos mais trocados pelos chineses, pelo menos aqui no Sul, em cada Novo Ano Lunar, a saber, “Congratule-se a Fortuna” (Gongxi Facai 恭喜發財) pudesse ser levado a sério e ao pé da letra, generalizando-se a todo o país, como “Votos de Grande Riqueza” (Facai 發財), porque no presente é isso que os chineses na casa dos 30, sem excluir outras faixas etárias, têm primeiramente em mente, e o resto virá depois, mas só após enriquecerem, e caso não percam de vista pelo caminho o serviço a altos ideais e à sociedade em que vivem.

Neste aspecto os chineses revelam-se em grande sintonia com o resto do mundo ocidental, onde a preocupação em encontrar um bom emprego salta para primeiro plano, como não podia deixar de ser em sociedades onde os níveis de desemprego tendem a aumentar e portanto o emprego se torna um bem escasso pelo qual é preciso lutar. Ainda assim passou a ser valorizado apenas a título instrumental.

Trocando por miúdos, o trabalho, também no País do Meio, deixa de ser glorificado pelo seu valor intrínseco. Deixou de ser algo natural, porque a relação com a riqueza também mudou, e tornou-se um instrumento em lugar de destaque nos tempos da sociedade reformista, iniciados por Deng Xiaoping (鄧小平), bem como nos pós-reformistas.

As formigas desenvolveram asas poderosas, querem voar alto por si próprias, construir os seus projectos económicos, tornando-se autónomas. Desejam conduzir os seus destinos de forma independente, com vista ao enriquecimento rápido e ao cultivo de um estilo próprio, que já nada tem a ver com um formigueiro uniformizado. Não só a classe média chinesa, mas todas as outras anseiam por maior liberdade de acção: do homem das obras ao doutor, todos aspiram, legitimamente diga-se de passagem, a uma vida melhor.

Por isso se trocam empregos tradicionalmente prestigiados, ligados à vida académica e ao estudo, pela constituição de empresas e outras actividades comerciais, que cada um justifica como bem pode, dourando a pílula de modo a coincidir com os valores tão caros à sua tradição cultural, como sejam a Benevolência e a Sabedoria.

Duan Dongtao dá vários exemplos de opções laborais. Em todas elas, as pessoas optam por enriquecer, até mesmo a médica-veterinária, Yang Jing, troca a sua actividade clínica pelo estabelecimento de uma firma de animais embalsamados. Faz fortuna e fá-lo em nome dos mais elevados ideais do Confucionismo, uma vez que, segundo as palavras da empresária, os donos de animais de estimação, agora muito em voga sob influência ocidental, podem continuar a usufruir da companhia dos seus bichos mumificados, sendo esta essencial sobretudo para os mais idosos e desamparados.

Em grande mudança está também a concepção do valor pedagógico do trabalho em termos do comunismo marxista-maoísta com características chinesas. Ainda não desapareceu a ideia de reforma pelo trabalho (laogai 勞改) e de reeducação pelo dito (laojiao 勞教).

Por isso, hoje encontramos na China prisioneiros a ser reformados pelo trabalho (laogaifan勞改犯). No entanto, a reeducação no campo (laogai nongchang 勞改農場) deixou de ser prática corrente após a era maoísta. E quanto às restantes actividades relativas ao trabalho como punição, aquele que nós portugueses chamados forçado, também tenderão a desaparecer, creio que por dois motivos: um filosófico, devido à desvalorização da ideia de trabalho, que já não educa nem metamorfoseia, nem redime; o outro, mais pragmático, prende-se com a pressão internacional.

O trabalho para a geração dos anos 80 transformou-se num emprego com vista à realização de sonhos individuais, como bem resume o editor Zhou Yujin, um dos exemplos apresentados por Duan Dongtao: “Neste tempo consumista, precisamos de um emprego que nos permita realizar os nossos sonhos e controlar as nossas vidas (2013:25)”.

Donde se conclui que nas sociedades consumistas nem tudo é mau. Se por um lado estas criam muita poluição, já que estão a produzir e a gerar expectativas em torno de bens quantas vezes supérfluos, por outro, relativizam o próprio valor do trabalho, que deixa de ter o efeito de poção redentora de uma humanidade que se porta mal.

Também no Ocidente formado no quadro judaico-cristão e até aos tempos protestantes, mais especificamente aos calvinistas, o trabalho é sentido como uma punição sobre a humanidade, um castigo redentor para o primeiro casal em queda que arrastou consigo todos os outros.

Na China tradicional, como já vimos, o trabalho era um bem, mas com a ascensão do Partido Comunista, passou a usufruir de um estatuto milagroso, aproximando-se de certa forma da tradição bíblica, viabilizando a alteração do destino e a metamorfose integral de quem pensava mal.

Entretanto os tempos voltaram a mudar. Actualmente as novas gerações chinesas, procuram-no a fim de realizarem os seus sonhos e ideais individuais, que ultrapassam em muito as tarefas rotineiras em fábricas ultra-poluentes e em empregos de função pública.

Estamos a assistir a uma grande viragem de mentalidade nos jovens chineses rumo à criatividade, e pela rapidez com que geram riqueza, pode prever-se que dentro de pouco tempo existirão muitos milhões com estilos de vida semelhantes aos ocidentais, a reclamarem alto e bom som contra as nuvens de poeira que lhes ensombram a existência.

Hoje já são difíceis de contabilizar os chineses que trocam as asas pequenitas das formigas pelas grandes dos pássaros.

 

Bibliografia

Duan Dongtao. 2013.  A Survey of China’s Post-1980s Generation. Beijing: New World Press

 

*Professora convidada do Departamento de Português da Faculdade de Artes e Humanidades

 

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s