Um ancião nas correntes d’escritas

Sara Figueiredo Costa* 

O calendário não falha: anualmente, no fim de Fevereiro, a Póvoa de Varzim enche-se de escritores e leitores para mais uma edição do festival literário Correntes d’Escritas. É difícil perceber como é que uma pequena cidade portuguesa, com infra-estruturas, características e dificuldades semelhantes às de tantas outras pequenas cidades, consegue encher salas com gente disposta a ouvir falar escritores, mas esse é um daqueles mistérios que ficarão sem resposta. Melhor será constatar, ano após ano, o sucesso de uma receita que melhora a cada edição e que tem sido, com maior ou menor eficácia, ‘importada’ por outras cidades.

Celebrando os 15 anos de actividade, as Correntes d’Escritas reuniram este ano mais de sessenta escritores de expressão portuguesa, castelhana e outras, oriundos dos espaços ibérico, sul-americano e africano. Entre esses escritores contavam-se precisamente 15 estreantes na Póvoa, quase todos com idade para se integrarem naquela etiqueta dos ‘novos autores’ que o mercado inventou e todos escolhidos, através do voto, por participantes regulares do festival. Essa estreia fez da edição deste ano das Correntes um ponto de encontro privilegiado entre gerações, coisa tão apregoada pelas boas intenções de empresários e comentadores televisivos como pouco praticada no quotidiano de um país que faz da juventude um estatuto a manter e da velhice um momento descartável onde se cruzam pensões reduzidas, isolamento e uma permanente sensação de inutilidade.

Deste lado do mundo, alguém com mais de 70 anos é um velho, e se essa condição não é biologicamente diferente em função da longitude geográfica, a sua percepção define modos quase opostos de encarar a vida. Dizer velho, neste rectângulo atlântico de onde escrevo, é sugerir acabado ou a caminho disso, e manda o pudor perante esse estádio final de uma vida (ou talvez o pudor pelo confronto com a morte) que se prefira termos como ‘idoso’, ‘da terceira idade’ ou outros igualmente higiénicos. Bastaria rodar com força o eixo do globo para perceber que um velho não tem de ter o seu estatuto higienizado pelo pudor verbal, porque um velho é alguém que já viveu aquilo que tanta gente nem sonha, mas pode intuir, aprender ou arriscar saber se tiver como ouvir uma parte ínfima dessa vida. Foi, por isso, um privilégio voltar a ter nas Correntes d’Escritas um sábio como Eduardo Lourenço, presença regular no festival, falando para um auditório onde cabiam 600 pessoas e onde, para além das cadeiras ocupadas, não sobrava parede nem chão onde coubesse mais alguém. Deste lado do mundo não podemos dizer que Eduardo Lourenço é um velho que toda a gente devia ler e poder ouvir pelo menos uma vez, mas para os leitores de Macau, conhecedores do muito que vale para a comunidade a presença de um mais velho entre os mais novos, fará sentido dizê-lo. Talvez possamos chegar a um compromisso semântico e usar a palavra ancião, aqui algo arcaica no uso, aí talvez mais corrente.

Foi, então, o ancião Eduardo Lourenço que voltou a iluminar as Correntes d’Escritas, desfazendo qualquer temor sobre a hipótese de a crise que vivemos poder afectar a literatura, garantindo que nesse domínio tudo corria muito bem e destacando, nesse curso, o papel dos tais ‘novos’. O problema, explicou, “é estarmos imersos na chamada cultura ocidental, que atravessa uma das maiores crises de sempre, uma crise que vem de um sistema que não tem centro e onde todos os paradigmas que conhecemos são afectados por uma insignificância, uma exaustão, que não conhecíamos até hoje”. Um ancião que enfrenta o desconhecido, vendo no futuro o lugar de todos os questionamentos e preferindo o pensamento e a reflexão ao baixar de braços que costuma resumir-se na ideia de estarmos, simplesmente, à beira do abismo, é um sábio que não podemos deixar de ouvir. Sobretudo quando assegura, desassombrado, saber o que é estar à beira do abismo, referindo-se ao fim inevitável que vamos tentando ignorar com o truque semântico de não falarmos da velhice. Devíamos ter mais velhos à nossa volta e devíamos ouvi-los sem a soberba que nos dá o cabelo por encanecer.

*Jornalista e crítica literária

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s