Crónica feminina

Maria Caetano

Os anos 1980 deram ao mundo muito mais coisas do que música e indumentárias de gosto duvidoso, cuja intemporalidade nos veio afinal surpreender em pleno século XXI sob a etiqueta do corrente “mau-bom”. Deram também a muitas raparigas primeiros nomes compostos ambivalentes como “Maria João”, por exemplo, literatura infantil com heroínas modernaças e independentes, e mães zelosas e apostadas em que as suas filhas soubessem e quisessem governar-se sozinhas, sob pena de envergonharem as conquistas da geração anterior. As escolas, por seu turno, inculcaram nas crianças aquilo que se vem designando desde há anos como “politicamente correcto” e um idealismo universalista onde “os meninos são todos iguais” e “as meninas e os meninos também”.

Posto isto, arruinou-se a concepção feminista para se assumir que o “feminismo” seria uma espécie de antónimo de “machismo”, igualmente recuado e ignorante. O futuro era mais humano e indiferente às diferenças de género. Eis se não que as ideias andaram à frente dos tempos para os escolarizados dos portugueses anos 1980, uma geração de universitários massificados que se havia de ver a caminho do desemprego, e de múltiplos divórcios e relações de género difíceis.

Uma geração cheia de ideias bonitas e em choque permanente com as gerações anteriores e com a realidade à sua frente, que ainda hoje leva baldes de água fria da área da genética e afins – não somos todos iguais; temos afinal predisposições cromossomáticas.

Adiante! A multiplicidade das vivências dos tempos correntes faz chocar muitos universos paralelos, confusos e indisponíveis para se entenderem. Mas é, sobretudo, na Praça do Tap Seac, a cada início de Março, que é maior o choque e pavor. Os mundos colidem e átomo divide-se, soçobrando uma nuvem-cogumelo de dúvidas. Voltamos assim ao bestial que há em nós, ainda não completamente ultrapassado pelas belas ideias: O que é que as mulheres querem?

Neste caso, querem um Carnaval das Mulheres a cada 8 de Março, segundo deduz o Instituto de Acção Social e a Comissão dos Assuntos das Mulheres, inferindo sabe-se lá de que consultas. Até há uns anos, pareciam querer também um relatório sobre a condição feminina que, anualmente, confirmava a versão redutora e bacoca de que boa parte das mulheres desta terra prefere cuidar da casa e da família a fazer qualquer outra coisa. Por sugestão, pergunte-se a um homem se prefere acordar cedo da cama para ir trabalhar ou ficar em casa gozando os rendimentos do agregado, e compare-se.

Curiosamente, raramente se perguntou às mesmas mulheres se queriam rendimento igual para trabalho igual, se queriam esquemas de promoção na profissão que privilegiassem a competência em detrimento das relações pessoais e estereótipos sobre a relação entre mulheres e cargos de chefia, se queriam que a lei sobre a violência doméstica classificasse as agressões como crime público, se queriam que as suas crianças fossem educadas para o humanismo e universalidade ao invés de serem separadas por género em boa parte dos estabelecimentos escolares, se queriam um combate ao tráfico humano efectivo que penalizasse o lenocínio e não a prostituição, etc. e etc.

A visão sobre os assuntos de mulheres, infelizmente, continua a confundir-se com certos carnavais e com fraldas e biberões, no pressuposto de que o que é questão é ter amas e acesso às creches, como se o cuidado dos filhos não fosse responsabilidade dos casais e não apenas de um dos membros. E como se ter filhos, em si, fosse um assunto de mulheres.

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