O meu senhor

Sónia Nunes

 

Sabemos que há qualquer coisa de fatal numa história que começa a ser contada por coincidências: os detalhes nunca são esquecidos quando falamos de um dia que não podia seguir caminho como se nada tivesse acontecido. Venho falar-vos de um desses momentos em que a vida como a conhecemos fica suspensa. Esta história começa com um gira-discos que tocava Jacques Brel baixinho porque já passava das onze da noite. Foi neste domingo. A agulha picava “La chanson des vieux amants” (poderia lá ter sido outra canção?) quando o meu telefone deu sinal de mensagem. Era ele.

Já tinha pressentido que havia chegado o momento da conversa, a definitiva, aquela que termina ou renova uma relação já gasta pelo tempo. Connosco tinham passado quase dois anos – faltavam três meses, ele não é dos que esquece um aniversário – e ambos acusávamos desgaste. Eu estava confortável com a rotina, mas ele queria mais e já me tinha feito saber que éramos de mundos diferentes. E somos. Ele é (como é que adivinharam?) o senhorio e eu a arrendatária.

A nossa relação, como qualquer outra, é de poder. Sou, sem surpresas, a parte mais fraca, ainda que não seja por opção. A mediar as nossas turras estão apenas os memoráveis conselhos de Chu Lam Lam, directora dos Serviços da Reforma Jurídica e do Direito Internacional, quando disse que os limites à actualização das rendas podem ser conseguidos através de negociação entre senhorios e inquilinos. Segui a dica e estou cinco por cento grata: em vez de um aumento brutal de 40 por cento, vou ter um de 35 por cento. Mais a actualização do depósito. Mais um agradecimento por não ter de pagar uma comissão a uma agência. Sobretudo, mais um obrigada por não ficar com a casa às costas, a meio da noite de um plácido domingo, quando o preço a pagar é o de mercado e o que não falta é gente à procura de tecto.

Todos os dias há alguém em Macau contar uma história como esta (vá lá, menos romantizada) que não conhece finais felizes: quem fica é forçado a esticar o salário até rebentar; quem sai sabe que vai pagar mais por uma casa pior. À falta de uma razão para haver um Chefe do Executivo que, em ano de ser reconduzido no cargo, opta por ignorar a maior causa de insatisfação social, resta-me recordar o que um amigo, leitor de Baudrillard, me dizia na faculdade: se é verdade que o capitalismo encerra em si os germes da sua própria destruição, a única coisa a fazer é acelerar o processo.

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