A táctica do pastel de nata

[Um quê de quoi]

Cláudia Aranda

Foi ao som do cavaquinho português da tuna macaense, alguns cantores locais, artesãos e tapetes de Arraiolos, muitos pastéis de nata e algum vinho tinto do Douro português que Macau lançou a operação de caça ao turista em Nanning com o crème de la crème do Governo de Macau e da região autónoma de Guangxi presente na inauguração.

Para quem nunca tinha andado nestas aventuras de acompanhar comitivas oficiais foi surpreendente verificar no terreno o quanto os vestígios da cultura portuguesa, a música, a arquitectura, a gastronomia, a pastelaria, o vinho são usados pela máquina promocional do Governo para cobrir de cosmopolitismo esta pequena cidade plantada à beira da foz do rio das pérolas e atrair visitantes da China profunda.

Se a táctica do pastel de nata tem sucesso só temos que ficar felizes por isso, não é sequer a questão. O que está aqui em causa será a tendência para restringir essa diversidade cultural de Macau ao que é mais óbvio, comer e beber. Não querendo de forma alguma diminuir o peso que a gastronomia tem na cultura desta região, e na cultura dos povos em geral, convenhamos que faltou mostrar que diversidade cultural é também as línguas, a literatura, a história, o cinema, a arte, a pintura, que Macau diz que quer divulgar e desenvolver. Promover a cultura passa também por aí, por levar o público, os que vivem cá e os que chegam de fora, a ver o que os artistas locais e os não locais fazem, expõem e publicam.

Foi interessante perceber que Guangxi tem uma visão de desenvolvimento turístico que vai além-fronteiras, quer conquistar a Europa, os Estados Unidos da América, quer os turistas estrangeiros que vão a Macau a passearem-se em Nanning e em Guilin, quer fazer exposições e convenções.

Guangxi quer conquistar o mundo. Macau quer conquistar os turistas de Guangxi. Quer que estes venham, que permaneçam, que gastem dinheiro e que consumam produtos culturais. Se o objectivo é, de facto, selecionar o tipo de turista, apostar na qualidade e não na quantidade como estratégia para reduzir a pressão sobre o território, então esse investimento terá que começar nos conteúdos das campanhas promocionais.

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