O destino turístico

Maria Caetano

 

Macau tem abraçado a sua vocação de turismo e jogo como quem abraça uma fatalidade. A programação económica das últimas décadas parece ter vindo a assistir aos anos colhendo as graças dos vistos individuais na clemência e misericórdia das autoridades centrais, e, rogando que estas não falhem, pedindo o milagre da diversificação. Enquanto este não se opera, a dependência do jogo e actividades satélite é cada vez maior, paradoxalmente.

Tem acontecido até aqui que os pensadores da nossa diversificação, ambíguos quanto baste, sofrem de um qualquer pré-juízo relativamente ao pouco de tradicional que ficou ou poderia ser revitalizado, jogando o slogan da inovação, do que é internacional e moderno, como se para além dos casinos houvesse apenas terra queimada.

As chamadas indústrias criativas, acredita-se, hão-de pegar aqui de estaca, de uma cepa criada noutro lugar qualquer. Regue-se de financiamento e de noções generosas do que deve ser um talento. Se nada acontecer, provavelmente, dir-se-á que foi o destino que não quis.

Para criar é preciso a gente entreter-se com as coisas e gostar delas um tão pouco que nos permita querer dar delas e que elas prossigam, mesmo reinventadas, e cheguem a mais paragens. Até agora, temos ouvido falar de muita gente que gosta de apoios, que gosta de financiamento, que gosta de segurar contrapartidas antes de fazer qualquer coisa por amor, jeito ou arte.

Nesta economia, a criatividade é um protótipo seguro em pinças e que não vê caminho de fábrica. Foi feito para propósitos decorativos e para, de um ponto de vista recreativo, entreter as ideias da geração pós-1980 sem nunca as descomprometer com o jogo. Já foi assim com o sector das convenções.

Sobram o turismo, a hotelaria e grande retalho – do pequeno, por este andar, não ficará história. E são estes sectores que são inquestionavelmente aceites como destino de Macau, que tem por teima nunca se imaginar antes um ponto de partida para uma coisa qualquer. Ou mesmo como um lugar de permanecer.

Vai estudar-se a capacidade de acolhimento turístico para que se contabilize mais do que quartos de hotel construídos. Espera-se que o selo de uma universidade isenta seja aposto a um documento que repete as queixas de quem cá mora: falta espaço, é desconfortável, não apetece sair de casa.

E tenha-se justiça com os visitantes que pagam para cá vir passar um bom bocado e não para passarem por um aperto. É mau serviço, é vender gato por lebre. Não é uma fatalidade.

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