O valor económico e o valor simbólico

[Territórios da língua]

Ana Paula Dias *

Numa época em que se fala tanto do valor económico das línguas, é estimulante refletir sobre o valor simbólico e o prestígio associado ao conhecimento de determinadas línguas estrangeiras.

Em sociolinguística, o termo “prestígio” descreve o nível de respeito atribuído a uma língua ou dialeto em comparação com o de outras línguas ou dialetos numa comunidade de discurso. Este conceito está intimamente relacionado com o de classe no interior de uma sociedade: geralmente há prestígio positivo associado à língua ou dialeto das classes superiores e prestígio negativo associado à língua ou dialeto das classes mais baixas. O conceito de prestígio está também intimamente ligado à ideia de língua padrão (sendo que o dialeto mais prestigiado é susceptível de ser considerado a língua padrão) embora existam algumas excepções a esta regra. O prestígio é particularmente visível em situações onde existem duas ou mais línguas em contato e em ambientes urbanos diversos, socialmente estratificadas, nos quais existem falantes de diferentes línguas ou dialetos, interagindo com frequência. Apesar das percepções comuns de que certas línguas ou dialetos são relativamente bons ou maus, corretos ou incorretos, de um ponto de vista puramente linguístico, todas as línguas — e todos os dialetos — têm igual mérito.

É imputado prestígio a diferentes línguas e dialetos com base em fatores que incluem um património literário rico, um alto grau de modernização da língua, um considerável prestígio internacional ou o prestígio dos seus falantes. Ter muitos desses atributos significará provavelmente que a língua é vista como sendo de alto prestígio; do mesmo modo, línguas ou dialetos com poucos ou nenhum desses atributos serão considerados de baixo prestígio.

Há também uma forte correlação entre o prestígio de um grupo de pessoas e o prestígio conferido à língua que falam, dado que a língua está intimamente ligada à cultura. Por exemplo, o prestígio que o latim deteve durante séculos exemplifica este fenómeno, na medida em que o prestígio associado aos membros do clero, advogados e intelectuais que falavam latim foi transferido para a língua. A própria língua latina foi considerada nobre e bela, não apenas as ideias que nela foram expressas ou as pessoas que a falaram. Portanto, a proclamada “beleza” de uma língua é, de facto, reflexo do prestígio dos seus falantes – não há grupos sem prestígio que tenham sistemas linguísticos altamente prestigiados.

Vêm estas reflexões a propósito de duas situações que tive ocasião de viver recentemente. A primeira, em novembro do ano passado, tem a ver com a minha participação no 4O. Simpósio Internacional sobre Línguas Europeias no Sudeste da Ásia, subordinado ao tema “The Role of Art, Music and Literature in European Studies – A Critical Discourse in Cross Cultural Communication”, que decorreu na Universidade Nacional de Taiwan nos dias 15 e 16. Nele reuniram-se investigadores japoneses, russos, coreanos, alemães, gregos, espanhóis e taiwaneses e, para alguma surpresa minha, línguas como o francês e o alemão, sem o tão apregoado “valor económico”, revelaram o seu forte valor simbólico e prestígio, com várias comunicações a debruçarem-se sobre aspetos específicos das suas culturas. E não só: nesta universidade e noutras de Taiwan, há a oferta destas línguas e um número considerável de alunos a aprendê-las. Aliás, um breve parênteses para referir que na vizinha Zhuhai existe uma escola primária e secundária, a Zhuhai Beida Affiliated Experimental School, que oferece a disciplina de alemão e mantém programas de intercâmbio e bolsas de estudo com a Alemanha.

Embora a Alemanha não mantenha relações diplomáticas com Taiwan, ao todo existem mais de 3.000 alunos do ensino secundário a aprender alemão no país, o que coloca esta língua em quarto lugar entre as línguas estrangeiras ensinadas, a seguir ao inglês, japonês e francês. Além disso, são oferecidos cursos de alemão em muitas universidades e escolas de línguas privadas, bem como no Instituto Goethe Taipei.

De acordo com o Taipei Times, dados do Ministério da Educação apontam para quase 4000 alunos a estudar francês em Taiwan e a notoriedade desta língua no ensino secundário é resultado do trabalho sistemático quer do instituto Francês de Taipei, quer do governo francês, que considera a promoção da língua e cultura francesas no estrangeiro uma das prioridades da sua política externa. A popularidade do francês nas escolas secundárias e no mercado de línguas estrangeiras em geral está relacionada com a riqueza cultural francesa na arte e no cinema, assim como com a “beleza” da língua, segundo afirma Lee Pei-hua, uma taiwanesa eleita presidente da Federação Internacional de Professores de Francês.

Similarmente, numa recente visita a Tóquio, foi-me possível constatar que o francês estava presente em variadíssimos anúncios e no comércio ligado à restauração. Em cafés e em secções alimentares de supermercados viam-se simpáticas frases em perfeito francês, espelhando uma imagem de sofisticação, elegância e requinte que implicavam uma representação positiva da língua e da cultura dessa língua, procurando despertar a curiosidade e atrair os consumidores – no fundo, fazendo-os sentir membros de uma comunidade de prestígio.

Sobre a presença/ ausência destas e doutras línguas nestes e noutros espaços e sobre os factos e as ficções da sua importância, representatividade e prestígio muito haverá a dizer. Mas hoje fico-me por aqui…

*Doutoranda na Universidade Aberta

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