Nostalgia em Goa, futuro em Macau

[Travessa das Verdades]

 

Inês Santinhos Gonçalves

Goa é um lugar sem tempo. Cristaliza um Portugal passado, onde as mobílias ganham pó e o azeite é “do reino”, mas também nos abre uma porta para o futuro. Mais de cinco décadas passaram desde a saída dos portugueses – para uns foi a “invasão”, para outros a “libertação”. E mesmo com as diferenças significativas que marcam os dois territórios, é difícil não pensar, debaixo daquele céu azul brilhante, no que será Macau no pós 2049.

A chamada portugalidade tem (ainda), por cá, um estatuto que a protege, pelo menos em forma. A língua é oficial, o pastel de nata não só se come como é íman e porta-chaves, e o património vai sendo pintado de fresco com regularidade. É legítimo perguntar, já em 2014, o que realmente existe de genuíno na alma da cidade, mas por enquanto a diferença ainda se identifica – não estivesse eu a escrever estas palavras num jornal em língua portuguesa. Mas e daqui a 40 anos? Será Macau um lugar de cálida nostalgia de um Portugal que só viu em fotografias antigas?

Se entre Macau e Goa há um abismo de cores, cheiros, gentes e sons, os dois territórios partilham uma história de colonização, de herança e língua. Hoje, em Goa, fala-se das “gentes de fora”, dos indianos que vêm do outro lado da fronteira e engrossam os números do crime, sujam as ruas, são rudes e mal-educados. Hoje, em Goa, há um punhado de velhotes que se junta aos domingos para a única missa em português e lembra, com saudade, os tempos antigos. Hoje, em Goa, há um Instituto Camões e um departamento de Português na Universidade, com uma centena de alunos. Nas escolas, a língua é opcional, ao lado de idiomas como o francês. Há um concurso televisivo de cultura geral para escolas em português, um festival da canção e uma fadista. Hoje, em Goa, há católicos, hindus e muçulmanos. Há sarapatel, balchao, vindaloo e caldinha de peixe. Há ruas de Natal e Ourém e bairros das Fontainhas e São Tomé.

Não há tradutores, nem Lei Básica, nem declaração conjunta. Há freedom fighters reformados. Não há livraria portuguesa, nem jornais, nem bilingues na Administração Pública. Mas há caetanos e sousas. O que ficou de Portugal não é material, não está escrito, não é de direito. Mas sente-se. Há animosidade requentada mas também um carinho, uma imagem enevoada das memórias romantizadas que passaram de avós para netos.

Os goeses não são os macaenses porque são antes todos os que pertencem à terra. Falem ou não português, sejam ou não católicos, estão unidos por uma diferença em relação ao resto do país. A passagem dos portugueses por Goa, boa ou má, deixou a semente da identidade. Uma semente que não sabemos se ainda dará frutos em Macau daqui a quatro décadas.

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