Gargalhando com Yue Min Jun

[Sinologia Portuguesa]

 

Ana Cristina Alves*

 

O Museu de Arte de Macau (藝博觀) trouxe ao território uma exposição de Yue Min Jun (岳敏君), um dos grandes pintores da actualidade chinesa. A pintura deste artista é filosófica como bem apresentou o coordenador geral da exposição e director do Museu Chan Hou Seng (陳浩星).

A pintura de Yue Min Jun pelas suas características de meditação teve grande sucesso nos Estados Unidos e o pintor viu-se eleito uma das “Personalidades que contam” pela revista Time em 2007. Podia então ler-se: “Se a grande questão dos nossos tempos é saber que retrato fazer da China, então este é o homem para o pintar.”[1]

A imagem mais retratada em Yue Min Jun é a um chinês de olhos fechados e boca escancarada, num esgar, sendo de tal forma exagerada a expressão que mais parece uma máscara. À medida que a exposição avança, vão-se sucedendo as séries de rostos em gargalhantes (笑臉系列).

O artista justifica filosoficamente a sua pintura, citando o capítulo 41 do Tao Te Jing de Laozi (老子,《道德经》,第四十一章), com pude observar no vídeo apresentado no Museu. A passagem é aqui apresentada tanto no original, como na tradução para chinês contemporâneo.

原文 (original)

上士聞道,勤而行之;中士聞道,若存若亡;下士聞道,大笑之。不笑不足以爲道。

 

今譯 (chinês contemporâneo)

上等士人聽“道”,努力去实行;中等士人听了“道”,将信将疑;下等士人听了“道”,哈哈大笑。——不被嘲笑,那就不足以成为“道”!

 

Quando a pessoa superior escuta o Tao, esforça-se por o praticar; quando a pessoa mediana escuta o Tao, ora o pratica ora o esquece; quando a pessoa inferior escuta o Tao, ri abertamente. Se não troçar dele, nem merece ser chamado “Tao”!

 

Vejamos o que Chan Hou Seng, na qualidade de coordenador nos diz no Prefácio à exposição sobre a questão do riso, na sequência da reflexão do próprio artista. Cita directamente o Tao Te Jing de Laozi (《老子》1999: 84), após o que realiza uma reflexão em torno do capítulo 41 apresentado acima,

老子将“士”分为三等,上士離大家的生活經驗太遠,中士有時蠢得可愛;唯獨是芸芸衆生,才是我們的生活常態。這世界不就是“下士”居多!今天老岳不過是以他的笑臉去證道,“代表”的是社會上最爲廣泛的下士——普羅大衆,同時嘗試透過圖像為老子的哲學命題作答。大家都可以在他的笑臉中找尋自己的天道、對世相、對人生的感悟。一如所有終極問題,答案都需要每個人在自己心裏尋找。

Tradução: Laozi divide “as pessoas” em três categorias. As superiores, muito afastadas da experiência humana; as medianas, bastantes estúpidas e o comum dos mortais, sendo que só estes últimos parecem retratar-nos. Abundam as “ pessoas inferiores” no mundo! O “Velho” Yue [2] recorre hoje aos seus rostos gargalhantes para “representar” o tipo inferior do comum dos mortais, o maioritário nas nossas sociedades – o público em geral,  tentando simultaneamente figurar e responder à filosofia de Laozi. Qualquer um de nós pode sentir algo perante os rostos risonhos, sendo levado a questionar a relação com o Tao celestial, com o mundo e a vida. A resposta ao sentido último de todo o questionamento filosófico, só pode ser pesquisada no interior de cada um.

As caras escancaradas de Yue Min Jun riem de tudo, de olhos fechados na mais completa das ignorâncias, tal como a pessoa inferior de que nos falava Laozi no capítulo 41. Mas há uma grande diferença entre o mundo de Laozi da mais Alta Antiguidade chinesa e o nosso. Naqueles tempos, Laozi acreditava que havia gente superior, bem como mediana e até inferior. Hoje, aos olhos contemporâneos do pintor, os chineses saem todos nivelados por baixo. Os valores do comum dos mortais são “denunciados” pelo artista: sejam os sonhos mais pessoais, por exemplo o casamento e a família, passando pelas procuras religiosas, por exemplo, a Peregrinação ao Oeste em busca dos sutras, um dos grandes motivos da literatura chinesa, até à própria generosidade, enquanto valor básico que permite manter a sociedade coesa.

Nas estátuas risonhas à entrada do Museu somos questionados sobre a eternidade da própria máscara do riso, porque a gargalhada que pode ser dada não é a gargalhada eterna. Se nem mesmo a máscara permanece, não seria avisado deixá-la cair? Mas como?

Eis duas questões que me surgiram ao questionar-me sobre o Tao celestial na exposição. Nesta leitura, não apenas os chineses, mas todos nós, seremos então uma espécie de caveiras adiadas, inautênticas que empunham a máscara do riso contra o passar o tempo. Só ela nos permitirá o distanciamento necessário para continuar a navegar sem excessos de sensibilidade, que uma vez vividos com autenticidade, nos seriam altamente prejudiciais senão mesmo fatais.

Despir a máscara tem um preço demasiado alto que a maior parte de nós não está preparada para pagar. A factura será tanto maior, quanto as pessoas se tiverem afastado do seu sentir individualizado e único. Como é óbvio, em países onde o sentimento colectivo domina o individual, o preço torna-se quase impossível de pagar.

Imagine-se um bilião e quase quinhentos milhões de chineses a procurarem experimentar o seu próprio caminho, mergulhando fundo até às raízes para encontrar a pessoa verdadeira (真人),  que nada tem a ver com o conceito de verdade na lógica ocidental.

Este desafio é claramente lançado pelo pintor: procurem a vosso modo de ser espontâneo, parece dizer-nos em cada quadro, ou pelo menos, parece dizer-me a mim. Talvez divirjam de opinião e de sentir, o que, no contexto estético que nos é proposto, não poderia ser mais louvável.

*

Professora Convidada do Departamento de Português da Faculdade de Artes e Humanidades da Universidade de Macau.

 

Bibliografia:

Laozi.《老子》.1999. Trad para Inglês de Arthur Waley e para chinês moderno de Chen Guying. Hunan, Beijing: Hunan People’s Publishing House, Foreign Language Press

 

[1] Folheto do MAM

2 Como é conhecido entre os amigos.

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