O dialecto em guerra

[Vis-à-vis]

Iris Lei

A tentativa do Governo de Hong Kong em negar que o cantonês é uma das línguas oficiais da região provocou indignação e um movimento pela conservação  do dialecto local. Apesar de a Lei Básica de Hong Kong estipular que as línguas chinesa e inglesa são os idiomas oficiais, 97 por cento da população fala o cantonês, considerado um dialecto chinês mas não língua oficial.

O desagrado não encontra excepção em Macau. Na “zona de guerra” do Facebook, várias pessoas afirmam que a língua veicular de ensino em algumas escolas mudou de cantonês para mandarim, em nome de uma maior competitividade, que estão a ser utilizados manuais escolares do Continente e que é aceite a escrita chinesa simplificada nos trabalhos de casa.

lembro-me de uma vez ter recebido uma nota negativa na escola primária por ter utilizado um carácter simplificado por conveniência, fazendo com que a pontuação do meu ditado caísse de 60 para 55 pontos. O sistema educativo está a mudar, de uma cultura de conservação cultural para outra de conveniência de escrita.

Aqueles que promovem a escrita simplificada e o mandarim aos falantes naturais de cantonês não têm noção efectiva da essência e da história longa deste dialecto, com cerca de dois mil anos de história por comparação com um século de mandarim. “Como chinês, acho que é um presente dos céus ter como língua materna o cantonês”. Estou contigo, To Kit, um escritor de Hong Kong.

É comum que cada falante de cantonês se confronte com a hegemonia do mandarim em Macau desde que teve início o esquema de atribuição de vistos turísticos individuais no Continente. Tentando falar com uma vendedora de loja, “Ni Hao” é sempre o cumprimento que dá início à conversa. O esmorecer da cultura local pode ser atestado na substituição dos caracteres tradicionais pelos simplificados nas zonas turísticas. Não é complexo perceber: acontece por causa dos turistas, do Continente.

É reflexo do processo de internacionalização que a cidade turística acolhas diversas línguas, como inglês, japonês, coreano, chinês simplificado e muitas outras.

É possível a coexistência do chinês tradicional, com o inglês, português, japonês e coreano, mas não com o chinês simplificado, conforme se vê no modelo adoptado. Porque o património cultural constitui a atracção de Macau e, em certa medida, se não protegemos a língua que falamos, no futuro próximo seremos “Ao Men”, nome dado à cidade em mandarim, alterando-nos desde a superfície até ao que é essencial.

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