Da invasão

[Pátio dos Fâmulos]

Pedro Cortés *

Da invasão

Num dos raros espalhos em que me atrevi a calcorrear a cidade fiquei perplexo com o número de transeuntes que tentavam atravessar a passadeira ou que povoavam todas as lojas de pechisbeques e outros luxos que o nosso querido burgo oferece.

É gente a mais.

Naqueles dez minutos de travessia do não deserto tentei pôr-me nos sapatos daquela gente – sim, prezado Leitor, é uma tradução de uma expressão da Velha Albion – e dei comigo a pensar, verbo de que não faço muito uso, que se tivesse de (1) andar a toque de caixa de um agente destemido e solícito para conseguir percorrer um passeio do centro da cidade, (2) esperar por um autocarro minutos sem fim, (3) ser extorquido por um taxista, (3) levar com os preços inflacionados dos restaurantes, hotéis e sabe-se lá que mais, (4) esperar quase uma hora para passar as Portas do Cerco, era cachopo para nunca mais cá pôr os chispes e para levar más recordações de uma cidade que era tão bonita e aprazível até aqui há uns anos.

Claro que valores mais altos se arribam e até concebo que faça parte da festa. Mas, por amor de Á-Ma, isto está a rebentar pelas costuras e nem a tesoura, o dedal e a agulha do mestre da Alfaiataria “Meng Cheong”, um dos grandes da terra, conseguirá coser os rotos que se abrem.

Tudo isto carece de ser alterado. Caso contrário, contribuímos para a degola da galinha dos ovos de ouro: os turistas. E, pior, acaba-se – de vez – com a qualidade de vida dos residentes de Macau que, caso ainda não tenham reparado, até aqui vivem e, porventura, gostariam de passear nesta chã que outrora era um paraíso na terra. Ou até – já percebi que sou capaz de estar a exagerar – imagine-se, de desfrutar do “Ano Novo Chinês” com parcimónia.

Nem me apetece falar no comportamento dos taxistas pouco ou nada diferente de uma quarta-feira de Agosto ao pé dos labirintos adjacentes à Rua de Pequim. Há uma tipologia de crime para a sua conduta e até as circunstâncias do “flagrante delito” queimariam etapas na investigação criminal.

Apraz-me, isso sim, registar que, se Macau se quer afirmar como destino internacional, precisa de ter uma facies diferente, mais virada para o turismo de qualidade do que para o desenfreado de massas. Bem sei que o primeiro é o objectivo de quem dirige os destinos da atracção de turistas para Macau, mas só temos sentido na pele a segunda face da moeda.

Gente e mais gente e mais gente. Moles de gente. Chego a sentir pena de tanta gente.

Eu não queria falar do comportamento dos taxistas. Não obstante, enquanto escrevia estas linhas contam-me que ao pé de um conhecido hotel-casino, onde as obras do Sandro Boticelli podem ser apreciadas – fica a sugestão para uma visita ao tipo de iniciativas que todos as operadoras deveriam ser obrigados a promover –  tiveram lugar verdadeiros leilões de oferta de serviços de transporte em carros de praça.

 

Debuxo o diálogo:

“O senhor, vai para onde?”, perguntou pela fresta do Toyota o Zé Manel, chauffer de praça há uns 20 anos e que ao fim de muito trabalho lá conseguiu comprar a viatura ao seu compadre Abel depois de vários anos a servir a Associação de Taxistas de Alpendurada e Matos, perto de Entre-os-Rios.

“Era ali para a Baixa, xáxavor!”, respondeu o turista Tonho Jorge, que veio de Paradela do Vouga passar uns dias com a família.

“São 300 mil réis! Quem dá mais?”, retorquiu o Zé Manel.

Quase ao mesmo tempo ouviu-se da boca de um outro turista, Manuel Joaquim, homem de posses de Vila Verde, pelo menos assim parecia pela pronúncia que imprimia ao mandarim, “Eu dou 400! E vou para a rotunda da Amizade*”

“Para onde? Ah… já sei. Ninguém dá mais? Arrematado ao Manuel Joaquim por 400 mil réis!” fechou com ar de felicidade o esforçado do Zé Manel.

 

Será que é mesmo isto que pretendemos para a nossa querida terra?

 

* Advogado

* Bem sei que não é esse o nome por que é conhecida a icónica rotunda, mas caso o Manuel Joaquim o tivesse usado – ao nome – corria o risco de ser confundido com um urologista ou até com um oftalmologista que dá consultas numa clínica privada de Vilarinho das Cambas, ali à beira de Vila Nova de Famalicão.

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