A vida no jornal

Hélder Beja

A primeira redacção de jornal em que entrei para me sentar a um computador e escrever foi a do Público, na Rua Viriato, em Lisboa, corria o mês de Março de 2007. Tinha então 20 e poucos anos, alguns ideais e muitos mais sonhos que agora.

Passaram sete anos, passaram umas quantas redacções e passaram duas cidades – Lisboa e Macau. A vida trouxe-me aqui e não posso culpá-la, como não vou bendizê-la. Cheguei para trabalhar neste jornal. Era 2010 e tinha então muitos mais sonhos do que agora (sim, os jornalistas também se repetem).

O PONTO FINAL abriu-me as portas da cidade. Primeiro deixou-me ser curioso como são os que chegam a um lugar novo e escrever sobre isso; depois deixou-me ser criativo e fazer acontecer páginas que não poderiam ter nascido de outro modo; também me deu espaço para ser teimoso e travar microscópicos combates jornalísticos por temas que valiam a pena.

Com as limitações de um jornal que opera nas circunstâncias deste, para uma audiência reduzida, numa cidade difícil de ler, com uma redacção pouco numerosa como são as redacções de Macau, o PONTO FINAL acontece todos os dias com o esforço de uma equipa quase invisível (como deve ser) e de muita qualidade.

Não é fácil fazer jornais em Macau. Trabalham-se muitas horas, o ritmo é acelerado, a massa crítica é pouca, as fontes são difíceis, a barreira da língua é aquela montanha que todos desejam escalar mas que muito poucos conseguem.

Os três jornais (quase) diários de língua portuguesa de Macau têm modos diferentes de olhar o território e, depois, de informar sobre ele. Não podia ser mais saudável do que isto, nesse aspecto. Têm, também, a liberdade de que necessitam para fazer o seu trabalho, as condições que o ofício exige e um bom número de profissionais capazes.

Mas os jornais de Macau (e a televisão, e a rádio) também sofrem de males, sendo o maior deles um apego que chega a ser obsessivo à agenda oficial da RAEM. O jornalismo de conferência de imprensa, o jornalismo de estar à espera que caia mais um comunicado do Governo, tem aqui uma força e, acima de tudo, uma predominância difícil de encontrar noutras paragens.

Para um repórter português, fazer um jornal local em Macau não é igual a fazer um jornal local em Braga ou em Santarém. A incapacidade de comunicar com a rua, que pode ser atenuada através do trabalho em equipa com repórteres locais bilingues (tão importantes), constrange todos os movimentos. Claro que isto está ligado ao que vem antes, à necessidade sentida de seguir a agenda, de ‘alimentar a máquina’.

A realidade local, da esfera política à económica, é complexa, com muitas zonas negras. Importa e muito acompanhá-la, escrutiná-la, revelar problemas, conluios, injustiças, casos de corrupção. Há quem o faça muito e bem. Mas a realidade – aquilo que há lá fora e nos enche os dias, que aguça a curiosidade, que mata essa sede de conhecimento que vamos tendo – essa realidade não tem de acabar nas Portas do Cerco.

A imprensa local, numa cidade como Macau, não tem de ser uma imprensa fechada ao resto do mundo. Potencialmente, todas as pessoas estão à distância de um telefonema ou de um email, aqui ou na Estónia. O critério de proximidade deve valer, mas não pode ser o único. E mesmo essa ideia de proximidade pode incluir Hong Kong, Taiwan, o Sul da China, todo o Continente, o Sudeste Asiático, os países de expressão portuguesa. À distância de um telefonema ou de um email. Ou, quando possível, de uma viagem de avião.

Não faz sentido que nenhum dos jornalistas dos diários de Macau tenha estado no Japão depois de Fukushima. Não faz sentido que nenhum jornalista tenha estado nas Filipinas depois do tufão Haiyan. Não faz sentido que quase nenhum jornalista acompanhe os grande acontecimentos regionais in loco, dos momentos políticos como o que a Tailândia atravessa (e não apenas aqueles para os quais o Governo da RAEM convida), aos eventos culturais mais importantes do continente asiático, que marcam e de que maneira uma das cenas artísticas mais efervescentes do globo.

Os constrangimentos orçamentais e de falta de pessoal não podem justificar tudo. Há investimentos que podem não ter retorno palpável (o dinheiro, o dinheiro) mas que nem por isso deixam de compensar. Os jornais de Macau deveriam procurar fazê-lo.

Este é o derradeiro editorial que escrevo nestas páginas e por isso decidi alinhavar algumas ideais sobre a imprensa local. Valem o que valem e não seria justo fechar sem dizer que se fazem óptimos trabalhos jornalísticos em Macau, que os jornais estão melhores hoje do que em 2010, quando cheguei.

O período na direcção do PONTO FINAL, conforme já fora acordado de antemão, foi curto e de esforço para consolidar um projecto que necessita de estabilidade. Fez-se o melhor que se pôde.

O jornal continuará bem entregue à sua directora, Maria Caetano, e a uma equipa levemente redesenhada. Eu permanecerei por aqui, na mesma redacção, atrás do mesmo computador, eventualmente até a escrevinhar umas páginas de Cultura para este mesmo jornal, mas desta feita concentrado na revista Macau CLOSER, no Festival Literário de Macau e em outros bons projectos que esta empresa fará nascer.

Trabalhar com o Ricardo Pinto e com muitos daqueles que o rodeiam é, sei-o bem, um privilégio. A vida nem sempre é madrasta. Ainda sobram alguns sonhos.

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