Exercícios de flexibilidade

Sónia Nunes

Do sítio onde escrevo, uma encantadora redacção com obras em curso, não consigo ver a Penha. É que nem uma nesga. Dir-me-ão que é natural: estou na Camilo Pessanha, a uns três quilómetros de distância e de costas para colina. O máximo que posso avistar é a vida privada dos vizinhos, o que tem tanto de cultural quanto de património. Acontece que acredito que o homem é mais do que as suas circunstâncias e atrevo-me a julgar que qualquer lugar é bom para abrir uma janela, indiscreta ou não. Também eu, mergulhada na rua das lojas de ferragem e quinquilharia, consigo abrir um corredor visual para a Capela de Nossa Senhora da Penha.

Assiste-me um certo tipo de fé. Fecho os olhos e ei-la, fina e parda, a fazer despontar uma torre sineira por entre árvores. Aproximo-me um pouco mais e encontro duas pessoas. Esperem. Uau. Sim, são noivos, estão a tirar uma fotografia antes do casamento. Verdade seja dita, se vejo tudo isto sem precisar de sair desta sala devo-o ao Governo. Quem diria que, a menos de dois meses da entrada em vigor da lei do planeamento urbano e da lei do património urbano, as Obras Públicas nos convocariam para o chamado espaço psicológico dos sítios e imóveis classificados? Ninguém. A 3ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa deu umas pistas quando, no parecer sobre a nova lei, fez saber que as zonas de protecção vão deixar de ser obrigatórias e que as Obras Públicas não vão depender do Instituto Cultural para desenhar planos urbanísticos que envolvam o Centro Histórico de Macau e os bens classificados. Mas nada nos tinha preparado para o que vem aí e é espectacular, que este Governo não faz a coisa por menos.

Jaime Carion, director dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes, confirmou este fim-de-semana que o Executivo vai aprovar um projecto que irá tapar a colinha da Penha, o que resta da colina da Penha. Mas fez mais do que isso. Explicou o que os deputados queriam dizer quando manifestaram interesse em ajudar o Governo a “lidar com as especificidades de um tecido urbano muito particular e pequeno”.

A “maior flexibilidade” na gestão do património é autorizar a Administração a dizer, com toda a confiança, que garante a existência de corredores visuais, mas só em certos e determinados ângulos. Há, como apontou (e bem) Jaime Carion, o “poente e o nascente”. Sendo certo que a Colina da Penha é um dos sítios mais altos de Macau circunscrito pelo mar o que não falta é ponta por onde espreitar – como, de resto, acontece com o Farol da Guia.

O que o Executivo propõe é um saudável exercício de imaginação e flexibilidade da parte de residentes e turistas na procura pelo património. Podia, no entanto, ir um pouco mais longe e beneficiar também outras indústrias, nomeadamente a criativa. Vou explicar como: a Administração poderia fazer uma versão anotada da lista dos 128 edifícios, centros e sítios que integram a lista de conservação, uma que indicasse quais as melhores ruas e posições para ver o património de Macau. Para ver o Farol Guia, suba até ao último andar do edifício do Gabinete de Ligação e diga que vai da parte do Instituto Cultural, por exemplo. Ou então, para ver a capela da Penha como era no tempo dos marinheiros, faça a Ponte de Sai Van e finja que teve um furo antes da curva para desfrutar da paisagem – se for de noite, ignore o sinal a néon, mas atente na diferença de estilos arquitectónicos de Macau. Giro, não é? Já experimentou ver as Ruínas de São Paulo a partir da Travessa Paixão, colocando-se de cócoras para tirar uma fotografia? Atreva-se.

Seria uma espécie de “Onde está o Wally?”, mas em muito bom e sem o bonequinho. As possibilidades são praticamente infindáveis e dão toda uma nova dimensão ao programa do turismo para fazer sentir Macau passo a passo. É aproveitar enquanto há.

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