Portugal, o melhor parceiro europeu da China

João Paulo Meneses

A China não é dos países mais populares em Portugal.

O que é um país popular? Aqueles de que só temos quase boas notícias, que não nos ‘ameaçam’ e provavelmente onde gostaríamos de viver ou de passar férias (isto sou eu a inventar…).

A França é um país popular em Portugal, por exemplo. A Austrália é um país popular. A Dinamarca, a Suécia, as Bahamas, o Canadá, etc.

A China não.

A descoberta das reais razões seria motivo para um estudo sociológico, mas um dos factores terá a ver com as características do regime político: uma ditadura de partido único, fortalecida por um exército poderoso, e com menos liberdades individuais do que no Ocidente.

Apenas esse?

Desconfio que haverá também alguma xenofobia. A forma como muitas vezes se escreve mas sobretudo se diz ‘os chineses’ faz-me concluir que custa admitir aos portugueses [só aos portugueses? Não será um problema mais vasto?] que alguém tenha vindo de longe para nos comprar, para nos vender, para ganhar dinheiro connosco.

A China ainda é – apesar das notícias nos dizerem cada vez mais o contrário – um país pobre, onde uma percentagem muito alta da população vive abaixo ou nos limites (internacionais) da pobreza.

Os mitos e as ‘estórias’ que em Portugal se contam sobre as ‘lojas dos chineses’ ou sobre a comunidade chinesa em geral indiciam, do meu ponto de vista, o desconforto de uma parte significativa da população relativamente aos chineses. Que não se verifica com mais nenhum outro povo, excepto, talvez, relativamente aos angolanos (mas aqui apenas relativamente a uma elite).

A recente compra do grupo segurador da Caixa Geral de Depósitos por uma empresa chinesa veio mais uma vez mostrar como a China incomoda. Se tivesse vencido a proposta norte-americana as reacções teriam sido bem diferentes.

E porque compra a China em Portugal?

Primeiro que tudo, a China também compra noutros países. Mas nem todos os estados da União Europeia (e estar na União Europeia faz a diferença, do ponto de vista do negócio e da geoestratégia chinesa) estão a vender os seus activos. Comprar em bolsa não é o mesmo que comprar em nacionalização. Comprar uma empresa privada, de boa saúde, não é o mesmo que negociar com um Estado a privatização de uma determinada companhia. Os riscos são maiores, mas o preço será mais baixo.

Outra razão: imagino que os preconceitos – absurdos ou lógicos – que existem em Portugal relativamente aos chineses existem também noutros países. E não parece difícil imaginar que quanto mais desenvolvida for a opinião pública nesse país mais receios haverá de que a China, sobretudo empresas estatais, compre sectores estratégicos – desconfio  que não seria possível vender a principal operadora de energia e a empresa que gere as redes energéticas da Bélgica ou da Holanda a grupos comandados a partir de Pequim (e não apenas pelos valores em causa)…

Ou seja, a China compra em Portugal porque é europeu (sinónimo genérico de qualidade e estabilidade), porque é (mais) barato e porque há menos resistência a fazê-lo.

E as boas relações históricas entre Portugal e a China, por causa de Macau?

Não é um argumento irrelevante, sobretudo do lado Lisboa-Pequim, mas não é decisivo. O dinheiro não tem cor nem lê livros, o que significa que a China compraria as empresas que quer comprar em qualquer parte do mundo, com ou sem boas relações históricas. Ajuda, facilita, mas não é por a Dinamarca ser mais crítica dos direitos humanos que a China não investe na Dinamarca.

O que a China sabe – à luz das tais relações de confiança que se estabeleceram nas últimas décadas  – é que quando quer comprar em Portugal não é maltratada. Que contará com o apoio e a defesa do Governo em português, que  os principais partidos do poder defenderão essa opções . [e por isso compreende-se mal a ‘indignação’ da Three Gorges relativamente ao corte nas rendas pagas às empresas de energia, já que esse corte atinge todas as empresas e não apenas a holding chinesa…].

Por tudo isto,  acredito que China vai continuar a comprar em Portugal. Sobretudo a China das grandes empresas, com facilidade de financiamento, que vêem nas privatizações nacionais uma forma de entrar na União Europeia e de, a partir de Lisboa, conquistarem novos mercados.

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