Será que é mesmo multicultural?

Ana Paula Dias*

Talvez o adjetivo mais usado quando alguém se refere a Macau seja “multicultural” e, concomitantemente, abundam na imprensa e em publicações locais referências às escolas multiculturais de Macau. Mas será que a educação em Macau é mesmo multicultural?

Efetivamente, os modelos de educação multicultural transformadora postulam a igualdade e a justiça social como metas importantes da escola. Ao contrário de abordagens contributivas ou aditivas, que integram o conteúdo multicultural sem considerar ou alterar a estrutura geral do currículo, as abordagens transformadoras implicam a sua reconcetualização para que os alunos sejam capazes de ter uma postura crítica relativa ao status quo e de tomar medidas para promover a justiça social.

Os paladinos da educação multicultural transformadora há muito que defendem a necessidade de reflexão sobre a identidade, por parte do professor, como pedra angular da sua formação. Sustentam que os professores só podem reconhecer como as questões relacionadas com etnia, religião e desigualdade socioeconómica influenciam as experiências de aprendizagem e realidades sociais e culturais dos alunos se aprenderem a refletir sobre os seus próprios contextos cívicos, culturais, linguísticos ou socioeconómicos.

A atuação de professores em salas de aula multiculturais implica que estes: (a) são socioculturalmente conscientes, (b) têm expetativas positivas sobre alunos de diversas origens, (c) vêem-se como responsáveis por trazer a mudança e tornar as escolas mais equitativas, (d) compreendem como os alunos constroem conhecimento e são capazes de promover a construção do conhecimento, (e) conhecem a vida de seus alunos e (f) concebem projetos que se baseiam no que seus alunos sabem e alargam-nos para além do familiar.

As aspirações e a promulgação deste tipo de educação não podem ser separadas de contextos sociopolíticos mais amplos. Por exemplo, a educação das crianças de origens culturais minoritárias é altamente dependente de como as sociedades conciliam as tensões entre uma identidade nacional comum e os direitos dos cidadãos de grupos de identidade diversa. Nas últimas décadas, diferentes ideologias espelhadas nas políticas e nas narrativas oficiais surgiram em resposta para o dilema de unidade-diversidade – os assimilacionistas e separatistas nos extremos, e os pluralistas e os multiculturalistas no meio, capturam as posições políticas divergentes.

Os separatistas enfatizam a manutenção dos grupos de identidade diferenciada através da existência de escolas distintas. A postura separatista assume formas variadas: nos EUA, por exemplo, os afrocêntricos defendem uma ideologia separatista educativa afirmando ser necessário um paradigma educativo alternativo para combater o domínio de ideias “brancas”, eurocêntricas, na educação. Na Alemanha, na década de 1980, refletindo a linha oficial que a Alemanha “não era uma nação de imigrantes”, em vários Estados as escolas criaram turmas separadas para estudantes turcos, a fim de manter a sua cultura e língua e estarem aptos para eventual repatriamento.

Ao invés dos separatistas, os assimilacionistas opõem-se à criação de paradigmas educacionais alternativos, alegando que o multiculturalismo promove a diversidade em detrimento da unidade nacional. Esta abordagem é evidente na França, onde o princípio republicano-secular da laicidade oferece aos imigrantes igualdade perante a lei, mas obriga-os a adotar a língua e a cultura como pré-condição para o sucesso. A assimilação manifesta-se da mesma forma entre os defensores de programas exclusivos de língua inglesa nos Estados Unidos, que defendem proporcionar aos estudantes de minorias culturais as capacidades para prosperar dentro do que entendem ser a cultura “mainstream” do país.

Podemos estabelecer uma distinção útil entre pluralistas e multiculturalistas: para os pluralistas, as escolas devem ensinar aos alunos ideias originais do país, as normas, práticas e obrigações especiais que têm como membros de determinada nação. A cultura e outras formas de identidade de grupo, em contrapartida, devem limitar-se à esfera privada porque não é o papel da escola elevar a consciência sobre elas. Os multiculturalistas, por seu turno, repudiam a existência de uma esfera pública culturalmente neutra e discordam que cultura deva ser confinada à esfera privada. Para os multiculturalistas, os grupos de identidade minoritários têm direito não só à tolerância, mas também ao reconhecimento e representação explícitos nas instituições da sociedade mais ampla. O multiculturalismo é, portanto, uma política pública com base em duas dimensões principais: reconhecimento da igualdade social e da diversidade cultural para os membros de minorias.

A educação desempenha um papel central na realização de ambos. A preparação do professor para a transformação social tende a aumentar em sociedades com políticas multiculturais explícitas. A Austrália é um exemplo – embora as escolas do país tenham sido fundadas em princípios assimilacionistas, as políticas educativas mudaram para acomodar as culturas e línguas das crianças não-anglo-australianas. As políticas educativas atuais exigem preparação do professor para o planeamento e o trabalho com alunos de diversas origens. Neste cenário, surgiram estudos para iluminar o nexo entre diversidade, identidade e reflexão do professor, sobre como o posicionamento étnico e socioeconómico dos docentes informou as suas construções de identidade e as maneiras como lidaram com alunos de diferentes origens culturais e socioeconómicas. A pesquisa sugere ainda que os professores desenvolvem compromissos com a justiça social através da construção de autoconhecimento e cultivando a abertura à diversidade e ideias dos outros.

Justifica-se assim a questão inicial e acrescentam-se mais algumas dúvidas: a educação e as escolas em Macau são multiculturais? Este tipo de reflexão tem sido promovido? A formação de professores aborda estes aspetos? A sua atuação reflete estes princípios? Ou afirma-se incorporar a multiculturalidade nas práticas, enquanto na verdade o que se incorpora é o culturalismo, baseado em factos e estereótipos infundadas sobre o outro, que perpetua preconceitos e reforça as discriminações, o folclorismo, o reducionismo identitário e a guetização cultural?

* Doutoranda na Universidade Aberta

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