2014 a galopes

Márcia Souto*

 

 

Encontra-se aberta a temporada dos decálogos retrospetivos e prospetivos, conforme a natureza do “listador”. A risco de ser repetitiva, senão mesmo ‘dejá vu’, faço também aqui estas viagens entre o ponto de partida e o porto, algures e alhures, de alguma chegada.

 

Aos que gostam de olhar pelo retrovisor, é comum listarem as principais realizações do ano que se finda, sendo elas um impulso para animar o próximo Ano Novo: bons negócios, diplomas, projetos bem-sucedidos, conceções, criações… Já os de natureza futurista, estes fazem exercícios de antevisão: sonham com um ano novo prodigioso e se deliciam em ver o dia de amanhã como uma oportunidade irrevogável de sucesso.

 

Sendo eu, tal qual Pessoa (e as demais pessoas), múltipla e diversa, destacaria no meu decálogo estes seguintes teres e haveres:

 

  1. Ter conhecido o Oriente, onde, da nossa perspetiva, nasce o sol
  2. Ter criado, com Filinto Elísio, a Rosa de Porcelana Editora
  3. Ter editado o mais recente livro de António Correia e Silva
  4. Ter mudado, qual pássaro de voo largo, para o poiso Lisboa
  5. Ter visto meus pais juntos em Salvador, na Bahia
  6. Haver iniciado uma interlocução com Macau por este jornal
  7. Haver sofrido pelas desgraças na Síria, no Iraque e, agora, no Sudão do Sul
  8. Haver publicado, com indecisão de primeira viagem, meu primeiro livro
  9. Haver vivido em Cabo Verde, descobrindo o ying e o yang das terras
  10. Haver chorado, com serenidade mineira, a morte de Nelson Mandela

 

 

Do particular para o universal, sabendo o mundo dentro de mim, revejo a lista sem gosto por ordenar temporalmente ou por ordem de importância, mas por lembrança e o caos de que a memória é composta. As ditaduras da cronologia e da relevância matariam, no ovo, a poesia pretendida. E sendo a memória um misto de passado e desejo de futuros, lembro-me agora da boneca de trapos, Emília, personagem de Monteiro Lobato, que, aquando da escrita de suas memórias, depois de ser defrontada com as críticas de que não estava a narrar a verdade dos fatos ao contar mirabolantes aventuras, assim conceitua ela: “a mentira é a verdade que se esqueceu de acontecer”.

 

Esquecidas de acontecer, desejo que as mentiras que criamos para sobreviver ao nietzschiano excesso de realidade floresçam com viço e cor real no próximo ano.

 

Mas a propósito de decálogos… eu bem queria que em meu Ano Novo ocorresse o seguinte (desta sem os espartilhos dos verbos redutores):

 

  1. Reconhecer-me nesse Oriente, mais de meditação que de competição
  2. Editar, pela Rosa, o Prémio Camões Cabo-verdiano, Arménio Vieira
  3. Ler livros, os inumeráveis, que não se esquecem
  4. Sentir Lisboa de Pessoa, apreender-me da mátria (livre e solta que nem o Brasil) que é a Língua Portuguesa
  5. Ver nossos filhos, juntos, em Campo de Ourique
  6. Revisitar Macau e, podendo, sorver a primavera em Pequim
  7. Comemorar, em cravos jogados à rua, os 40 anos de Abril
  8. Pensar a gestação de um outro livro, sem pressa
  9. Querer: igualdade, liberdade, fraternidade – sem guilhotina
  10. Brindar sempre (em jus ao vinho) a nós e a quem goste de nós

 

Há horas do final do ano conforme o calendário ocidental, não posso deixar de me lembrar que, para o ano novo chinês, faltam mais algumas semanas, e me ponho a perceber que em todo o mundo anexa-se às comemorações uma listagem prospetiva e retrospetiva. Dessa forma, a memória e o desejo, marcas próprias do ser humano, esteja ele onde estiver, unem-se em fogos de artifícios.

 

Desejo ao leitor de/em Macau que, no ano que se aproxima, “oriente-se pela constelação do Cruzeiro do Sul”.

 

* cronista

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