apontamentos japoneses

Catarina Domingues*

 

Em Tóquio. Akihiro vai todos os dias ao Santuário Yasukuni. Nunca deves passar o portão pelo centro, esse espaço está reservado aos deuses, diz. À frente do altar, Akihiro atira uma moeda para um pote gigante, inclina a cabeça para baixo, bate palmas uma vez, volta a fazer uma vénia, e volta a bater palmas. Na China, diriam que ao visitar o Yasukuni, Akihiro presta homenagem a criminosos de guerra, no Japão são divindades. A forma de Akihiro manifestar respeito pelos mortos é tratá-los como se estivessem vivos.

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Virados para o palco do @home cafe estão dois otakus (pessoas com interesses obsessivos, pode ser por desenhos animados ou por manga). Um otaku joga `quatro em linha´ na companhia de uma abelha, de braços longos e fininhos, fininha é também a voz; o outro é solitário, e está colado a um livro de manga.

Akihiro não estranha quando uma empregada de saia rodada e meias de fio fino a meia-perna se ajoelha à nossa mesa, boa tarde meu senhor, boa tarde minhas senhoras. A bonequinha desenha um gato a chocolate à superfície do meu latte machiatto, depois leva as mãos à frente, junta-as em forma de coração e diz: moe moe kyun, mais uma vez, moe moe kyun, à quinta pede para repetirmos, moe moe kyun. E Akihiro fica agitado, e Akihiro cora porque sabe que estamos perdidas. Eu levo as mãos à frente, não quero deixar Akihiro ficar mal, e moe moe kyun, e outra vez, moe moe kyun. Isto é linguagem inventada, atira Akihiro, mas percebo que fala sem certezas. All the food is made with our big love, pode ler-se nos individuais rosa à mesa do @homecafe.

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Por dia, mais de três milhões de passageiros passam pela estação de Shinjuku. Nas escadas rolantes, uma fila perfeita, bem vestida, e sempre alinhada à esquerda. Pequim fez-me acreditar que isto não era possível. No metro, muitos livros de bolso substituem muitos smartfones.

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Meninos de uniforme saem da escola e vão à livraria. Livros de manga, e mais livros de manga pornográfica. Quando ainda vivia em Lisboa, na Almirante Reis, e tinha dez anos, e a minha irmã onze, tropeçámos numa colecção pornográfica volumosa no quarto da Cristina, a empregada. Nunca tínhamos visto aquilo nas prateleiras da Barata ou da Bertrand, razão pela qual decidimos manter a descoberta em segredo. Nessa altura, o conhecimento não era dado de mão beijada.

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Às três da manhã, a terra treme. Epicentro a mais de 400 quilómetros de Tóquio, 7.1 graus na escala de Richter. Os nossos anfitriões têm tudo preparado, capacetes de protecção, estantes presas ao tecto. A cama anda de lá para cá, mas eu volto a adormecer.

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Akihiro não tem especial interesse pela China, nem pelos chineses, porque ser japonês na China não foi fácil. Mas é a China que nos une, e é só em chinês que podemos comunicar. Ninguém mais fala mandarim no Santuário Yasukuni.

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Tradução livre de parte do folheto que recebo no Yasukuni: “Anteriormente denominado por Shokonsha, o santuário foi construído em 1869. Quando o imperador Meiji visitou Shokonsha pela primeira vez, disse: `Asseguro que todos aqueles que lutaram e deram a sua preciosa vida pelo nosso país viverão para sempre neste espaço´. Actualmente, mais de dois milhões de divindades estão aqui consagradas, são almas de homens que fizeram um último sacrifício pela sua nação desde 1853, durante a Guerra de Boshin, a Guerra sino-japonesa, Primeira Guerra Mundial, o Incidente da Manchúria, Incidente da China ou a Grande Guerra do Leste Asiático”.

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Os `maid cafe´ apareceram pela primeira vez nos finais da década de noventa como um espaço de descontracção para os otaku. Nessa altura, as empregadas vestiam-se de versão-maid-francesa-sexy de mini-avental, meias até ao joelho, e anáguas volumosas. Com a concorrência, surgiram novas tácticas para atrair mais clientela, apareceram abelhas listradas como as do @homecafe, e fadas rosa de ar inocente, e outras personagens de livros manga, e de jogos de consola. Os `maid cafe´ têm regras, não se pode tocar ou oferecer presentes às empregadas, nem fotografar sem pagar. As meninas tratam os clientes como donos na sua própria casa, meu senhor, minha senhora.

Segundo uma pesquisa que faço quando regresso a Pequim, a expressão `moe moe kyun´ apareceu pela primeira vez no quarto episódio da série de desenhos animados K-on, que conta a história de quatro estudantes do ensino básico que se juntam para fazer renascer a banda musical da escola. `Moe´ expressa a felicidade de um otaku quando exposto à manga, a um idolo ou outra paixão, `kyun´ é a reacção de alguém ao ver um homem ou mulher de quem gosta. `Moe moe kyun´ pode ser descrito como o orgasmo verbal de um otaku.

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O Matsuo Basho é uma das melhores memórias do Japão. Pena que o pequeno museu do poeta não tenha uma única explicação em inglês. Fica um haiku para o mestre do haiku: no palácio/a chorar o inverno/o velho bonsai.

 

*Jornalista em Pequim

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