Línguas e cidadanias

Maria Antónia Espadinha*

Há aqueles dias em que tudo acontece, outros em que não acontece nada… ou era melhor que nada acontecesse. Nunca se falou tanto de cidadania, de direitos do cidadão, direitos da mulher, direitos da criança, direitos e tudo e mais nada, mas falta o contraponto, ou seja, mostrar que, por cada “direito” há também, no mínimo, um “dever” que também é parte da cidadania. Na realidade, há mais do que um. Há muitos. Há todos aqueles que dizem respeito aos direitos dos outros.

O “fluxo”(?) do trânsito nas ruas de Macau obriga-nos, cada vez mais, a usar os transportes públicos. Apesar de tudo, acabamos, utilizando-os, por cumprir o dever de contribuir para a redução da poluição em Macau. Superlotados, lentos (como não?) os autocarros acabam por ser “a” solução. Mas a ausência de sentido cívico leva-nos a assistir a cenas pouco agradáveis, de idosos que entram e não conseguem sentar-se porque os lugares estão ocupados por jovens que se entretêm em jogos no telemóvel, ou ouvem música de olhos fechados, ou estão simplesmente distraídos.

Nem falo por mim. Ainda me seguro bem de pé e há quase sempre alguém que me oferece o lugar. E nem sempre é alguém que eu conheça. É, quase sempre, uma mulher que nem está a ocupar um dos bancos “especiais”. A “distracção” também é multicultural. Por acaso, quando se trata de desconhecidos, os nossos amigos chineses talvez sejam os mais atentos, e não só com os seus compatriotas. No fundo, o civismo tem de ser ensinado, e não só na escola. Eu acredito nos valores transmitidos na família e que a escola pode complementar, mas só complementar. Há coisas que se vão aprendendo desde o berço e se colam a nós. Não são matéria para exame. São “bagagem” para a vida.

Volto aos autocarros, mas agora a eles mesmos e às frases que os “enfeitam”, desde aquela das crianças carregadas à mão (um mimo!), às outras, igualmente pitorescas. Nesta cidade que tanta atenção presta à Língua Portuguesa (é o que se diz), não haverá ninguém que faça a revisão dos anúncios e avisos nos transportes públicos, nos edifícios onde os elevadores param nos “pisos parados”… Coitado de quem mora nos “pisos em movimento”. Nem sei como conseguem chegar a casa! Há pessoas, inclusive professores de Português que estão desempregados ou em empregos de sobrevivência mínima, alguns até em organismos e instituições com responsabilidades na área da divulgação da língua. Por que é que não há um revisor acreditado e firme de todo esse manancial de placas, inscrições, etc? Por que é que se vai, a pouco e pouco, eliminando o Português a favor do Inglês? Notem: não sou contra o Inglês. Acho é que, numa terra onde o Português também é língua oficial, este deve aparecer sempre no lugar que lhe compete, o segundo. Já agora: também acho “linda” a despedida simpática da voz portuguesa da CTM, quando nos dá uma informação que solicitámos: “Obrigada para perguntar”. Parece-me que chega de folclore. Vamos falar Português!?

*Professora Emérita da Universidade de Macau

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