Francisco Gonçalves Pereira

Rui Rocha*

 

O rito da celebração, de qualquer celebração, é sempre um ato cíclico de exorcizar o tempo e de o transformar em qualquer coisa de durável, ou mesmo de eterno, ao reatualizar a origem, ao fazer nascer de novo uma data, um acontecimento. É uma forma de resistência individual e coletiva ao tempo linear em que tudo é efémero e com o qual gerimos o nosso quotidiano e os nossos tempos de vida.

Mas a celebração é também um mecanismo social de exercitação da nossa memória coletiva em relação aos eventos, às ideias e aos princípios que marcaram a construção e o destino de uma nação ou de uma comunidade. É o que poderíamos designar um ato de solidariedade entre as diferentes gerações e que habitualmente se designa por tradição.

Manter a memória viva, individual ou coletiva, de acontecimentos ou de pessoas que, de um modo ou outro, marcaram, de facto, a nossa comunidade de destino é uma das condições de liberdade, pessoal e política e é uma responsabilidade social. Há um direito, um dever e uma necessidade de memória dos povos porque as ruturas da memória coletiva raramente, senão nunca, são fatores de liberdade, mas sempre fontes de violência e de barbárie, como afirmou a psicanalista francesa Dominique Bourdin.

Isto vem a propósito da aguardada e justa homenagem a Francisco Gonçalves Pereira realizada em Lisboa no dia 2 de dezembro no Centro Científico e Cultural de Macau, com o lançamento do seu trabalho de doutoramento editado em livro e intitulado Accommodating diversity: the People’s Republic of China and the ‘Question of Macao, iniciativa já assinalada neste jornal na sua edição de 5 de dezembro, assim como a que se irá realizar em Macau no próximo dia 15 de Dezembro na qual irá ser apresentada a versão chinesa da 2ª edição do livro Portugal, a China e a Questão de Macau, de Francisco Gonçalves Pereira, edição esta que tive o gratíssimo prazer em organizar e promover a sua difusão. Quem ainda não leu este livro deveria fazê-lo pelas razões que na altura, na nota de edição, invoquei e que se mantêm ainda atuais. E cito:

“Razões subsidiárias se anotam adiante para a necessidade de uma nova edição deste título da colecção Memória do Oriente. Porém, a razão primeira desta 2ª edição inscreveu-se no desejo da Direcção do IPOR prestar uma singela homenagem a Francisco Gonçalves Pereira, prematuramente desaparecido de entre nós, dando a conhecer às gerações mais jovens desta cidade o importante legado deixado como pensador político, investigador e cidadão português de Macau.

Publicada a sua primeira edição em Setembro de 1995, na altura uma raridade na bibliografia histórico-política portuguesa contemporânea sobre a “questão de Macau”, facilmente se transformou num livro de referência e de leitura obrigatória, porque consistente e de elevado apuro investigativo no âmbito da sociologia da vida política dos atores e instituições de poder de Macau, e também inovador no seu léxico político abundantemente reproduzido no comentário dos opinion makers; mas sobretudo, porque passados 15 anos da sua 1ª edição continua a ser o livro de divulgação porventura mais interessante e didaticamente mais bem sistematizado  que se editou desde então sobre “a questão de Macau” (a lembrar as publicações da coleção Que sais-je?). Daí a razão da sua grande procura por parte do público e, consequentemente, desta segunda edição.

De tal modo agradável é a sua leitura que o leitor conscientemente não se apercebe que corre apressadamente texto afora para chegar ao capítulo seguinte, ao ritmo de uma história interminável, quando, de repente, dá consigo debruçado sobre esse horizonte temporal finito do ciclo de presença portuguesa em Macau que é o ano de 1999.

Um livro onde convergem notáveis e difíceis virtudes numa só escrita: o rigor e a profundidade do saber a par da simplicidade e a fluência do dizer. Uma narrativa que nos conduz, em pouco mais de 180 páginas, através dos aproximadamente 450 anos de história das relações entre os Portugueses e o Império do Meio, informando-nos, também, com grande expressividade e clareza, sobre as duas (e por vezes mais) visões identitárias e políticas distintas de portugueses e chineses referentes ao poder e autoridade soberanos em Macau até à formalização de um consenso sobre a supracitada “questão de Macau” em 1979”.

Afirmei ainda que Portugal, a China e a Questão de Macau carecia de uma tradução para chinês, urgente e necessária. Essa vontade e essa necessidade foram entendidas pela Fundação Macau na altura, apoiando o projeto e em boa hora a atual direção do IPOR deu seguimento ao mesmo, pois o valor da sua divulgação em língua chinesa é inquestionável, quer junto da população da RAEM em geral quer, muito particularmente, da sua população docente e discente, maioritariamente não falante da língua portuguesa.

Outra razão do interesse da leitura deste belo livro escreveu-ma Francisco Gonçalves Pereira na 1ª edição que me ofereceu, para além da manifestação da sua amizade, e que reza o seguinte: “(…) uma clara suspeição – a de que reflectir sobre Macau, nas suas várias dimensões, nos conduz a uma incessante glosa de sábia asserção, constante de um memorial da Corte Imperial, de que ‘os acontecimentos passados servem como espelho da política presente’”.

 

*Diretor do Departamento de Língua Portuguesa e Cultura dos Países de Língua portuguesa da Universidade Cidade de Macau

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