Criado do chão

Filinto Elísio*

 

  1. 1.   Deus do céu da África do Sul

 

Linda, de apetecer dançar a esta hora (dançar para exorcizar os males, note-se), a música de Gilberto Gil que, a páginas tantas, diz «Devolvei do chão/a quem do chão/foi criado». A música que apela ao Deus do céu da África do Sul, clamando à revogação da lei da intolerância, e que vimos, testemunhas da História, Nelson Mandela a dançá-la, anunciando, ao Mundo e à Contemporaneidade, a Verdade e a Reconciliação.

Como poucos, ele apreendeu, no longo cativeiro em Robben Island, que a libertação, mais do que apear do poder o dominador, significava libertar (pela catarse e pela sublimação cultural) das circunstâncias da barbárie o dominado e o dominador. Aqui, Mandela nos lembra Amílcar Cabral (outro grande, senão mesmo profundo) de ser a libertação um ato de cultura.

Entrementes, ele exerceu pedagogia de libertação quando, free at last, na visão do sonho de Martin Luther King Jr., perdoou uns e outros em nome do futuro da África do Sul e do Mundo, porquanto doravante já nada ficou igual. Naturalmente que, senhor desta nossa Era, propôs ele (para os políticos de sua geração) a humildade de que o «Rei vai nu» e que também sob o verniz do poder se descortina a pele do humanismo, no oposto dialético da Besta. Aqui, também, Mandela nos lembra Erasmo de Roterdão e, saltando os tempos, afinal de eterno retorno, nos lembra Mahatma Gandhi.

O perdão, profundidade tão de Jesus Cristo, que só os homens de assaz generosidade conseguem apreender, a custos de toda uma vida, pelo tributo de o fazer prática. Cristo, mesmo na cruz, no alto do Monte Calvário, era um homem livre, para a grandeza da Humanidade.

Em certo sentido, faz coerência a inferência de Kumi Naidoo, diretor-executivo da Greenpeace Internacional, no seu entender que «Nelson Mandela nunca foi de facto um prisioneiro. Na verdade, sempre foi um homem livre. E agora, para sempre». Por tudo isso, dançar a esta hora procede, já que se exorciza sempre a «força bruta».

E, de repente, param os tambores para dar lugar aos cânticos à capela, o coro de muitas vozes de uma espiritualidade que nos amanha o coração. E a dança, ora não mais fruída, nem mais trepidante, mas lenta, quase mímica, em tributo ao homem (não, longe de ser santo, homem bom) que «salvou as nossas almas».

Vamos, em dança e em aplauso, celebrar o Deus do céu da África do Sul que nos permitiu Nelson Mandela, a este nosso tempo. Dancemos o instante do «Devolvei do chão/a quem do chão/foi criado». Vamos, em toada de Sweeto Blues, cantar «Nkosi sikelei’ Afrika», para que Deus abençoe a África e o Mundo.

 

  1. 2.   De Tamen

 

Pedro Tamen, ilustre poeta português e prefaciador, por honra minha, do «Li Cores & Ad Vinhos» (meu sétimo livro), tem uns versos – «Os Nautas», de título – que assim rezam:

(…)
Quando até sobre a tarde navegavam
a luz que dentro vinha sobrepunha
a lantejoula aguda de outro sol
ao passo opaco, idêntico, cercando
os braços intranquilos, a surpresa
que só de pressentida lhes doía.

(…)

Não vos sei dizer o quanto me apanha esse bem escrever poético, nem o quanto amanha por mim esse retrato de quem o navega. Só sei que gosto – oh, desmedidamente gosto -, das palavras postas assim à «gula insaciada»…

 

  1. 3.   Do Estado

Que tipo de Estado doravante? Que modelo de Estado para uma Nação Global, com o desafio de se transformar para o Desenvolvimento e num tempo aziago e periclitante? Diz Ricardo Guedes, Diretor-Presidente do Instituto de Pesquisa Sensus, que o «O sistema económico mais eficiente é o que equilibra o mercado, com ganhos adequados de lucros e salários, com o Estado no amparo de políticas sociais para os menos favorecidos, deixando o Estado a seus cidadãos o desenvolvimento pleno de suas vocações e actividades económicas». Assina-se por baixo.

Todavia, entre o Estado máximo e o Estado mínimo, há que encontrar a solução pelo Estado moderno e ágil (não ameaçador da nossa insularidade e da nossa diasporicidade) capaz de participar na sociedade e na economia, sem empatar as iniciativas do cidadão. O Estado amigo da cidadania é o que se vai querendo!

* poeta e cronista

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s