Novos atores e novas estratégias

Paulo Rego

Há dois novos atores na geoestratégia global para os quais vale a pena olhar com interesse renovado: o Papa Francisco e o novo presidente iraniano, Hassan Rohani. Sou insuspeito de ser fã do Vaticano ou de defender qualquer poder assente na religião. Tenho todo o respeito pela fé das pessoas e pelo seu direito individual de se deixarem embalar pelo dogma; mas olho com frieza e cultura de exigência para as fundações do poder cristão, seja ele católico ou protestante, cuja cauda histórica – talvez mais num caso do que no outro – é de bradar aos céus.

Francisco tem um discurso claro e uma postura discreta. É difícil imaginar que, com ele no poder, o Banco do Vaticano ande a traficar armas ou a lavar dinheiro. Bem… Se tudo continuar na mesma; se tudo não passar de uma encenação, então é ainda mais urgente pôr os olhos no homem, cortando-lhe o espaço para crescer. Mas é preciso ser rebuscado e os sinais mais fortes são os de que há alguma consistência formal e teórica na mudança de atitude. O problema deste Papa poderá ser o de defender o espaço que lhe quiserem cortar nos próprios corredores do Vaticano.

Francisco pode vir a ter uma importância ainda maior porque do lado do radicalismo islâmico nasce outra nova estrela disposta aos consensos e à negociação global, abrindo as portas do Irão ao diálogo com o resto do mundo. O recente acordo para o desenvolvimento do programa nuclear iraniano vale muito mais do ponto de vista politico do propriamente medido em unidades de energia, embora haja aparentemente também um consenso em torno da tese de que as energias alternativas jamais serão capazes de resolver a migração para a economia sustentável. Mas essa é outra questão.

A presença da China em qualquer negociação relevante é hoje em dia incontornável e uma prova de afirmação de Pequim em praticamente todos os palcos estratégicos da nova ordem mundial. Já a reação de Banjamim Netanyahu, essa, afasta os conservadores israelitas do círculo dos cavaleiros do diálogo; para além do tiro no pé das declarações inenarráveis sobre a invasão que vem de África ou a ameaça emigrante ao espírito judaico. Não sendo Barack Obama propriamente um rapaz louro e judeu, a estratégia de Telavive cheira a isolacionismo. Veja-se, por exemplo, a atitude radicalmente diferente que teve Rabat: os jornais sauditas criticaram o acordo, dando eco do espírito da nação, mas o discurso diplomático foi ponderado e construtivo, deixando a corte saudita a salvo de qualquer exclusão.

Estas movimentações são essenciais para se perceber o mundo na próxima década, mas servem também para vislumbrar a estratégia chinesa e, quiçá, as suas repercussões em Macau. Serão exageradamente conspirativas as teses sobre a influência política dos operadores de casino, quer nos Estados Unidos quer em Israel. Mas homens como Sheldon Adelson e Seteve Wynn, para citar dois nomes badalados em Macau, valem certamente alguma coisa, nomeadamente em Israel, onde têm acesso a círculos de decisão relevantes. Contudo, olhando para as última rodada da tabula global, ou muito me engano ou a lógica que estes operadores representam está a perder gás e relevância. Por mero vício de raciocínio, sem qualquer informação que o permita afirmar, diria que essa circunstância diminui também o papel que poderiam desempenhar como ponte da China para alguns dossiers internacionais. Nunca me passaria pela cabeça que Xi Jinping chamasse um operador de jogo para discutir uma decisão a esse nível, mas parece-me claro que Macau não é uma ponte só para a lusofonia…

A fragilização desse poder potencial por parte dos investidores norte-americanos resulta da ascensão de teses contrárias às suas, que necessariamente carregam consigo atores mundiais com perfil bem diferente. Será que as novas tendências serão lidas em Macau? Ou seja, irão os atuais atores readaptar a sua estratégia? Ou será que as novas estratégias implicarão a mudança de alguns atores?

Espaço viral

O nacionalismo e a xenofobia fervem no velho caldo da boçalidade, temperado com manias de sangue nobre e paranoias geográficas. O vírus comporta-se como o da gripe: está em constante mutação e resiste aos tempos intelectualmente manipulados, cuspindo discursos de sedução oportunista. As crises económicas e as lutas de poder nas superestruturas politicas são propícias à força da peste, que salta da Caixa de Pandora grunhindo direitos da identidade contra quem “abusa” do fato de sendo de fato gente, recusando ser filha de um deus menor.

Um turco moderno serve a um alemão tradicional porque dá o corpo ao trabalho e paga impostos; mas também é bode expiatório se é preciso expurgar as culpas da baixa produtividade ou da taxa de desemprego ariana. A doença é conhecida e a cura está identificada, mas muito boa gente prefere enganar a realidade com poções mágicas e genéricas em vez de um plano de vacinação racional.

O “nazismo” como outros radicalismos nas franjas mais tristes do islamismo ou do sionismo, são alvos incontornáveis da crítica que cumpre a missão de apontar o dedo ao Mefistófeles de sorriso amarelo. É mesmo assim; faz parte do jogo e não merece perdão. Mas o combate humanista feito em prol do bom senso também não pode ser cega nem surdo. Ou seja, importa perceber por que razão uma deputada de tão tenra idade, ainda por cima filha de imigrantes, dispara o fantasma dos não-residentes; como é também essencial desmontar os motivos que a levam a fazê-lo.
Chan Meng Kam concorda com ela, o que só por si já explica muita coisa. Mas há muito mais do que isso: como se o Universo me quisesse enviar um alerta, no preciso dia em que Song Pek Kei soltou a língua para um rol de asneiras, saía eu à noite de uma discoteca onde a nata da noite local bebe copos embevecida com pandas romenas e filipinas quando uma cena banal ganhou contornos de um choque de lucidez. Um grupo de jovens do Continente entrou no elevador num excesso de diversão proporcional aos copos a mais que traziam no bucho. Riam-se em mandarim, como se não houvesse amanhã. Duas jovens chinesas de Macau, com excesso de indignação, disparam em cantonense. “Estes turistas da ‘Mainland’ são mesmo estúpidos!”. Não, minhas lindas… Estão apenas bêbados. E, que eu saiba, o whisky é escocês; não é uma poção venal destilada pela dinastia Han, como facilmente de verifica quando um macaense bebe demais ou um português revira os olhos a cantar no meio da rua.

Minha cara Song Pek Kei: não são os não-residentes que fazem disparar o preço das rendas de casa; são os especuladores imobiliários com dinheiro de Xangai, Pequim e Fujian; é a lavagem de dinheiro onde não há bolsa de valores nem diversificação económica; é um Executivo paralisado, que não sabe – ou não quer saber – como proteger o cidadão comum da inflação desmesurada nem enfrenta a oligarquia local – da qual faz aliás parte o ícone político que a menina agora segue. Também ninguém vem tirar emprego a ninguém, porque como sabe – ou devia saber – não há desemprego em Macau mas sim uma constrangedora escassez de massa crítica; já para não falar de um mercado semi-escravo onde os não-residentes, submissos, ganham mal e porcamente com o pavor de que um dia o ´sponser´ acorde mal disposto e os recambie para uma miséria ainda maior. Por fim, pense duas vezes nesse espaço que pensa que é seu e que tanto a perturba ver ocupado por outros. Se antes dos seus pais terem cá chegado fosse essa a tese dominante a menina teria de viver Fujian – ou talvez nem tivesse nascido, porque no império do filho único as meninas ocupam o espaço do filho varão. De fato, o super povoamento na China é um problema e faz sentido promover o planeamento familiar, temperando a natalidade. Mas não com desrespeito pelos direitos humanos e pelas liberdades individuais. Os chineses do Continente que imigram para Macau procuram precisamente o nível de vida, o grau de liberdade e o multiculturalismo que não têm do lado de lá. Como os seus pais quiseram, tendo seno bem acolhidos. Como quiseram todos os seus conterrâneos, que já são tantos que já elegem três deputados. É claro que a imigração tem de ser controlada. Mas com bom senso e com humanidade – não nos termos que põe.
Concordo consigo quando enumera problemas sobre os quais temos de refletir, pressionando o Executivo na busca de soluções. Estarei ao seu lado, como grande parte da população, na luta por um mercado de arrendamento nos limites da decência, como aplaudo a denúncia de que modelo económico corporativo que esmaga a classe média. Também me incomoda o excesso de turistas – mas não os desconsidero – como discordo do excesso de não-residentes; porque se os queremos cá a trabalhar devíamos dar-lhes direitos de residência – como aliás tiveram os seus pais.

Apesar de tudo, agradeço que diga o que pensa, porque assim posso pensar no que diz, discordando em absoluto da forma como coloca a questão. Intuo também o faro político de uma jovem que diz o que muita gente quer nesta altura ouvir. E essa tese viral é a que mais me preocupa; porque sei que está a proliferar e conheço bem as suas consequências. Mas tenha cuidado: os termos que usa têm um rasto de má memória e são próprios de um conflito entre os povos que fere a identidade de Macau. Um residente, que é o que a menina pretende representar, tem outro respeito pelo acolhimento e pela interculturalidade. Pode hoje parecer que não, porque se sente pressionado pela queda do nível de vida e por um regime corporativista que não serve. Mas se tivermos o devido cuidado podemos tratar das dores de crescimento preservando uma das mais nobres mais-valias deste território, que é precisamente o de ter sido feita de muitas gentes e de muitas cores, muito antes da menina cá chegar. Caso contrário, se a sua tese vingar, amanhã alguém ainda se lembra de que nem menina nem Chan Meng Kam são propriamente daqui. Nessa altura, a linha que traça entre os não-residentes e os imigrantes pode ser ténue para salvar o espaço que hoje pensa que ocupa.

 

Carta à prima imigrante

Cara prima:

Escrevo para que reconsidere a intenção que me anunciou de vir para Macau. Tenho-lhe dito maravilhas cá do burgo, como sei que a minha influência, nomeadamente para arranjar emprego e residência, pesou na sua decisão. Tenho saudades suas e compreendo que queira vir para perto dos seus filhos – aproveito para lhe dizer que estão ambos de boa saúde. O pai bate-lhes e a madrasta nem lhes fala, mas não se preocupe. Se é isso que a move deixe os rapazes sofrerem mais um pouco para aprenderem a enfrentar situações difíceis. Aliás, já me pediram que verifique as suas intenções nessa matéria, porque essa ideia de vir de fora intervir na harmonia familiar está a causar muito incómodo entre os nossos amigos comuns.

Quando lhe disse que viesse fi-lo de coração aberto. A verdade é que não tenho no escritório ninguém com a sua competência – muito menos um quadro superior que mereça a confiança que deposito em si. Quando me comunicou que estaria disposta a abandonar a gerência de uma multinacional em Pequim para vir trabalhar comigo fiquei entusiasmado com a ideia. Mas temos agora um problema e, como não quero ser eu a cortar-lhe as vazas, peço-lhe que seja a prima a desistir de vir.

Recebi ontem um telefonema de um cliente muito influente que me pede um plano de comunicação contra a vinda de gente do Continente. Parece que os não-residentes andam a respirar o pouco ar puro que nos sobra e isso deixa muita gente nervosa. Não percebo bem do que estão a falar, mas pedem-me um discurso coerente para explicar que a terra está cheia e não se recomenda a mais ninguém.

Neste contexto, compreende não posso ir buscá-la, porque com o que me vão pagar faz muito mais sentido contratar um estagiário qualquer com BIR e fingir que é uma opção muito mais inteligente. Toda a gente sabe que não é assim, mas como ninguém quer perder a face ninguém se vai queixar.

Há um ponto nesta tese tonta com o qual concordo, sobretudo porque me dá jeito. Por muito dinheiro que haja, por maiores que sejam as necessidades de massa crítica, não vamos agora distribuir rendimentos por toda a gente se podemos ficar com uma fatia maior para quem já cá está. Por muito que me custe, faz sentido. Se calhar é mesmo isso que vou explicar a toda a gente. Parece um pouco pueril, mas é o tipo de conversa que toda a gente entende.

Por fim, devo dizer-lhe que esta nova lógica está a tornar a terra cada vez mais entediante, sendo também cada vez mais difícil encontrar gente interessante e competente. A diversificação económica parece-me um mito e o nível de vida está a baixar drasticamente. Pensei que nunca sairia daqui, mas por este andar qualquer dia ainda me piro para uma cidade mais a sério. Nesse contexto, seria tonto da minha parte continuar a trazer gente para cá. Afinal, é mais importante que cresçam fora para depois me ajudarem a sair daqui.

Estou certo que a prima me compreende

Com toda a saudade do mundo

O amigo de Macau

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