As palavras mágicas

Maria Caetano

Há palavras que são mágicas. Já sabíamos. “Abracadabra”, “Abre-te Sésamo”, e até “Supercalifragilisticexpialidocious”, usada quando não há nada para dizer, mas que realiza magicamente uma grande manobra de diversão das atenções e tem pelo menos o condão de quebrar o silêncio. À lista das palavras que comandam o pensamento mágico e delusional – que submete a percepção da realidade às ideações de quem profere a palavra, assumindo uma comunhão de ideias que raramente se verifica (embora, haja registo de alucinações colectivas) – junta-se uma outra nova: “talentos”.

A palavra mágica “talentos” foi, sem exagero e segundo ferramenta de edição de documentos em pdf, repetida 59 vezes pelo Chefe do executivo, Chui Sai On, na apresentação do relatório das Linhas de Acção Governativa para 2014. Isto foi a 12 de Novembro, uma terça-feira, e eis que, passados 13 dias, na última segunda-feira, já havia “talentos” para contar nas posições baixas, médias e elevadas de cargos de supervisão e chefia de seis concessionárias de jogo. E outros 150 estão na forja da formação para subirem na hierarquia das operadoras.

Francis Tam admitiu também que “o estatuto” dos trabalhadores locais nas concessionárias é passível de negociação na revisão das licenças de jogo, que deverá começar a ser preparada em 2015, segundo o secretário. Perante este tipo de raciocínio, a ideia de que este passe de magia esteja a ser imposto como condição para, por exemplo, aumentar o número de mesas de jogo, não é estranha. A ilusão é criada pelo Governo, mas não sem descredibilizar o mérito e competência da mão-de-obra local, vista como mera moeda de troca de negociações políticas e metida num estranho processo de alienação total do real valor do trabalho e do esforço.

Talvez seja esta a forma mais rápida e menos trabalhosa de gerar talentos de natureza espontânea, a fazer profissão de fé e conscientes do seu carácter “especial” e negociável na economia e na política. A tal ponto, neste processo de alucinação colectiva, os direitos especiais decorrentes da naturalidade atingiram uma hiper-valorização, que inundaram todo o debate politico recente e circunscreveram a acção governativa a meia dúzia de chavões (ou, bem assim, palavras mágicas). A espiral do proteccionismo resvalou, segundo alguns, para a xenofobia – a crença numa superioridade e em privilégios especiais adquiridos por nascimento, que exclui toda a população que, em condições iguais, não tem a marca mágica da naturalidade.

Este tipo de discurso é no entanto do domínio do sobrenatural, de magia ou crença de que homens e mulheres de condição igual na sua humanidade sejam separados entre os eleitos e os não-eleitos. A deputada Song Pek Kei, por exemplo, está entre os eleitos sufragados, embora não naturais. Mas a condição adquirida talvez a tenha feito ir mais longe, ao ponto de ver nos não-eleitos uma terrível ameaça. São eles, e não a ausência de controlo do mercado do arrendamento, quem faz as rendas subir. São também eles que ocupam os espaços de lazer dos locais, adianta. E estariam todos muito melhor se guettizados na ilha da Montanha , concretizando-se cabalmente a política ‘terras de Macau para as gentes de Macau’.

O perigo da magia é este, o de criar um universo delusional tão grande que, aos poucos, os argumentos vão sendo cada vez descolados do raciocínio verificável por instrumentos lógicos e deixa de haver referências comuns sabidas individualmente e partilhadas humanamente. A “verdade” fica então entregue a um líder ou escrita numa pedra, para nunca mais ser dedutível pelos padrões normais do raciocínio. E, a partir daí, tudo é possível.

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