Português, uma língua da moda na China?

Ana Paula Dias*

O Instituto Cervantes publicou um anuário relativo a 2012, intitulado “El español en el mundo. Anuario del Instituto Cervantes 2012”, que apresenta informações precisas e fiáveis sobre a língua e a cultura espanhola no mundo, que pode igualmente ser consultado em edição eletrónica no seu website.

São duas iniciativas a louvar: a primeira, e mais importante, é o facto de o Instituto Cervantes, como instituição pública que é, criada por Espanha em 1991 para a promoção e ensino da língua espanhola e para a difusão da cultura espanhola e hispano-americana, levar a cabo estudos anuais, sistemáticos, que permitem fazer projecções e planificar políticas de língua, assim como permitem ao público conhecer os dados concretos que ilustram o sucesso da sua missão e a situação efectiva e real da língua espanhola no panorama mundial. O segundo aspeto a louvar é permitir o acesso gratuito online a este material.

Veja-se então o seguinte: mais de 495 milhões de pessoas falam espanhol como língua materna, segunda e estrangeira. É a segunda língua do mundo por número de falantes nativos e o segundo idioma de comunicação internacional. O número atual de falantes de espanhol referido pelo Instituto Cervantes baseia-se em informação proveniente dos censos oficiais realizados entre 2000 e 2010, nas estimativas oficiais dos Institutos de Estatística de cada país e nas das Nações Unidas relativas a 2011 e 2012. As estimativas do número de falantes desta língua para 2030 apontam para 535 milhões de falantes e para 550 milhões no ano de 2050.

Informa-nos também o Instituto Cervantes que o espanhol é a terceira língua mais utilizada na Internet por número de utilizadores (cerca de 2.100 milhões): 7,8 por cento da totalidade dos internautas comunicam em espanhol e o uso desta língua cresceu 807,4 por cento de 2000 a 2011. Espanha e México, aliás, encontram-se entre os 20 países com maior número de utilizadores de Internet. Os dois idiomas que estão à frente do espanhol são o inglês e o chinês. Tendo em conta que o chinês é uma língua que, no geral, é falada apenas pelos seus nativos, o espanhol situar-se-á como a segunda língua de comunicação na Internet, atrás do inglês. Estes dados são relevantes na medida em que a procura de documentos em espanhol ocupa o quarto lugar em importância de entre as línguas do mundo.

Vêm estes dados introdutórios a propósito da situação do espanhol na China. Inmaculada González Puy analisa a situação do espanhol em áreas geopolíticas concretas, abarcando este ano a região asiática com quatro artigos dedicados ao estudo da situação da língua espanhola na China e em Hong Kong, no Japão e na Índia, por serem regiões que se concebem como prioritárias e estratégicas para a difusão linguística e cultural, associada ao reforço da imagem exterior de Espanha.

Segundo informação disponibilizada pela Secção de Educação da Embaixada de Espanha na República Popular da China, calcula-se que o número actual de estudantes de espanhol na China ronde os 25.000, o que configura um aumento importante, se comparado com os 1.541 alunos existentes em 2000. Há 35 academias espanholas e 90 universidades com cursos de espanhol no país. Em sete anos – de 2005 (quando havia 4.236 estudantes no país) a 2012 – o número quintuplicou e continua a aumentar ano após ano. Neste número não estão incluídos os alunos do Instituto Cervantes de Pequim (4.753 matrículas em 2011/2012) nem do sector emergente do ensino privado (academias, escolas de línguas abertas ao público e vinculadas a universidades públicas ou outros modelos de ensino não regulamentados), um nicho muito difícil de contabilizar, por se encontrar em constante expansão.

O Instituto Cervantes de Pequim posicionou-se, desde o início, como um dos mais importantes da rede de 77 centros em número de matrículas. O curso 2010-2011 terminou com 4.735 alunos, com um crescimento médio interanual de quase 60 por cento nos quatro primeiros anos. É evidente o interesse que existe pelo espanhol na China e a crescente procura de profissionais bilingues espanhol-chinês.

Quanto à vizinha Hong Kong, alguns exemplos: desde 2011 duas escolas do pré-escolar disponibilizam espanhol, quer para nativos, quer como atividade extracurricular (actualmente com 23 alunos). A Escola Rosaryhill, uma escola custeada pelo Governo, iniciou em 2012-2013 um programa de pré-escolar bilingue inglês-espanhol e os restantes alunos do pré-escolar também tiveram aulas de espanhol, embora com uma carga letiva diminuta. Um total de 600 alunos iniciará o estudo de espanhol em setembro de 2014 e no ensino primário, 300 alunos desta escola tem uma aula semanal de espanhol.

A English School Fundation também oferece espanhol como língua estrangeira extracurricular na primária desde 2002 e há cerca de 120 alunos no programa. Tem acampamentos de verão em espanhol para alunos do pré-escolar e da primária e o número de alunos varia anualmente entre os 50 e os 70.

Mais importante, a estrutura do novo sistema do ensino secundário de Hong Kong, que começou a implementar-se em 2009, comtempla o espanhol como língua de opção. Nas escolas internacionais, como a Escola Francesa, em 2011/12 houve 43 alunos a estudar espanhol como opção e 290 no programa para nativos. A Escola Inglesa teve 70 alunos, a Escola chinesa Internacional 65 e o Colégio internacional de Hong Kong também disponibiliza a língua. Há ainda 12 escolas com parcerias com a Universidade de Hong Kong que ofereceram cursos de espanhol coordenados por esta universidade em 2011-2012, abrangendo 605 alunos.

Quanto ao ensino superior, quase todas as universidades de Hong Kong têm atualmente cursos de espanhol: a Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong registou 45 matrículas em cursos curriculares e 195 em cursos extracurriculares, a Universidade Cidade de Hong Kong cerca de 600, a Universidade Politécnica de Hong Kong cerca de 450 e a Universidade de Hong Kong cerca de 200. Existem ainda escolas de formação contínua e profissional, das quais se destacam as seguintes: a De Columbus, com cerca de 250 alunos anualmente; a Viva Spanish, com 79 na sede e 130 nas escolas de secundárias onde partilham aulas; a Spanish World Amazing Languages, com cerca de 70; o Carabela Language Centre, com 40 alunos, a maioria menores de 10 anos.

Justifica-se assim a interrogação do título deste texto e expressa-se o desejo de ver estudos análogos e fundamentados em Portugal que permitam chegar a dados concretos que sustentem a euforia noticiosa a que assistimos ciclicamente sobre o “boom” do português na China…

 

*Doutoranda na Universidade Aberta

(a autora escreve segundo o novo acordo ortográfico) 

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One thought on “Português, uma língua da moda na China?

  1. É isso … onde está afinal a moda do português na China?!?
    Na China, 25000 alunos estudam espanhol, 18 vezes o número de alunos q estudam português: 1350 (http://expresso.sapo.pt/portugues-e-a-lingua-da-moda-e-do-emprego-na-china=f838497)! Considerando q no mundo o número de falantes de português é cerca de metade dos de espanhol (os tais 495 milhoes), poder-se á dizer q o sucesso da penetração do ensino de espanhol na China é 9 vezes superior ao sucesso do português!!!

    Ao ler no texto: “espanhol é a terceira língua mais utilizada na Internet por número de utilizadores (cerca de 2.100 milhões)”, dá a ideia q os 2100 milhões se referem aos utilizadores de internet em espanhol, o q claramente não pode ser!
    Serão 210 milhões? Ou são os 2100 milhões os utilizadores todos de internet no mundo?

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