Cultura e conveniência…

Maria José de Freitas*

“A cultura é uma necessidade imprescindível de toda uma vida, é uma dimensão constitutiva da existência humana, como as mãos são um atributo do homem.”

 in “O Livro das Missões”, de José Ortega y Gasset

Macau precisa de alternativas para que o seu crescimento se processe de forma sustentável e criativa, designadamente na área cultural onde se espelha a alma de um povo e onde pode deixar rastro a matriz da lusofonia.

Passando em revista os acontecimentos recentes que poderiam marcar uma viragem salientando esse aspecto, há várias situações que importa realçar.

Desde logo a IV Conferência Ministerial do Fórum Macau, que se realizou nos dia 5 e 6 de Novembro e onde se abordam estratégias para o desenvolvimento da cooperação mútua entre a China e os Países de Língua Portuguesa, tendo Macau como “plataforma”.

Sob o promissor lema “Novo Ciclo, Novas Oportunidades” definiram-se áreas de colaboração para o triénio 2013-2016, assentes no comércio, investimento, agricultura, recursos humanos, turismo, industria farmacêutica e cultura.

Sim, falou-se em cultura!

Procurámos saber quais as linhas orientadoras da colaboração na área cultural. Porém, os discursos oficiais não nos deram muitas esperanças e os resultados desse importante acontecimento centraram-se mais no pendor económico da colaboração do que no incremento cultural que pudesse advir desta, ajudando a cimentar os laços que se pretendem duradouros entre povos que partilham legados comuns.

Como quase sempre, feito o balanço pouco fica, e as trocas comerciais ofuscaram tudo o resto, dando-se maior projecção aos encontros e aos protocolos que se celebraram na área das importações e exportações.

A cultura ainda aguarda a sua hora…

De acontecimento em discurso, de discurso em intenção, de intenção em acção, passamos para as Linhas de Acção Governativa (LAG), recentemente apresentadas à população de Macau. Relemos as LAG de ponta a ponta, mais uma vez procurando saber o que, do ponto de vista cultural, se perspectiva para o futuro.

Procurámos os vectores que abordassem a abrangência cultural da população, para a qual afinal as LAG são feitas, e verificamos que pouco se vai para além do apreço pela multiculturalidade de Macau.

Apetece dizer: multiculturalidade que começou com os portugueses que cá chegaram há 500 anos e que continua nos portugueses que actualmente por cá não se podem acolher, porque não reúnem as condições necessárias…  Mas que, enfim, continua alargada a outras nacionalidades que aqui vão aportando,  tornando Macau uma cidade internacional, onde a língua inglesa domina, o jogo impera e as patacas oleiam as engrenagens.

Mas falo eu de cultura e, contudo, ela sobre…vive, pois ocorreram em simultâneo diversos acontecimentos com significado no âmbito da convergência cultural que fomenta a aproximação entre costumes e hábitos, sedimentando-os numa vivência plena e profunda.

A inauguração da nova Universidade de Macau, na Ilha de Henqin, é disso um exemplo e esta nova Universidade num campo aberto à população, pode tornar-se no grande pólo dinamizador de uma cultura de abrangência se souber atrair os cidadãos repartindo com eles sabedoria e experiencia.

Se o Governo assim o entender!…

Num outro prisma aconteceu a festa da Lusofonia, nas moradias da Taipa, encontro festivo de diversas sensibilidades culturais que compõem o puzzle que nos une… Uma festa alegre e policroma que, para além de partilhar tradições culinárias, trouxe animação, música, gracejos e risos que se prolongaram pela noite fora e terão novo acordar no próximo ano.

Seria interessante completar esta festa com espectáculos de teatro, música, música erudita, poesia, pintura e outras formas de arte.

Se as autoridades ajudarem!…

Em breve a grande festa dos macaenses trará aqui os macaenses da diáspora, vindos de todo o mundo para celebrar a sua diferença na cidade que os une.

E assim vemos que a dimensão cultural existe dinamizada pela força genuína das gentes desta cidade, qualquer que seja a sua origem, num desafio permanente e cívico.

Enquanto isso acontece, a nível oficial, a indiferença e o alheamento mascaram a ausência de uma posição efectiva e visível no que diz respeito à vocação cultural de Macau, como elo forte de uma cultura abrangente que ultrapasse a superficialidade de ser uma cidade-casino e a torne numa cidade com história, orgulhosa dessa história e que quer partilhar essa história com o mundo.

E aí há tanto para dizer e para fazer. Macau poderá ser o verdadeiro entreposto que ambicionamos e desejamos, divulgando a sabedoria das suas gentes, sem qualquer descriminação cultural, com a China da qual faz parte integrante, com outros países da Ásia aqui tão perto, com África, Europa e Américas.

Apetece perguntar: porque é que o Governo, sem ambiguidades, não abraça a multiculturalidade intrínseca da sua população e, para além do folclore, não a integra e “usa” de forma mais activa e exigente, junto da comunidade internacional, apresentando Macau como um centro de prestação de serviços aberto, culto, multilingue e sabedor?

A Cultura até pode ser conveniente, como aliás se vê em declarações que, a nível internacional, a apontam com uma das ferramentas importantes para garantir a sustentabilidade das cidades criativas.

É que, na verdade, “a cultura e a diversidade cultural têm de entrar como um eixo estratégico nos planos de desenvolvimento dos Estados, que hoje pouco se relacionam com elas. Há um potencial grande de relação entre a cultura e o desenvolvimento sustentável de uma localidade”, como diz Giuliana Kauark, que participou na cimeira Rio+20 e pertence ao U40, um fórum internacional que tem em vista promover a convenção da Unesco sobre a diversidade cultural.

*Arquitecta, Membro do ICOMOS 

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