Carta a um investidor

Paulo Rego 

Caro amigo. Bem sei que contratou os meus serviços para saber em primeira mão o que se passa nos bastidores da política local. Tenho-o informado com rigor e competência, para além da antecipação que é devida a quem decide escudado por dados que não são públicos. Por isso me paga uma pequena fortuna, mas temos de rever a avença. O problema é que a vida mudou e, nesta altura, se continuasse a dizer-lhe que controlo o que se passa estaria a enganá-lo a si e a mim próprio.

Já não falo só de nomes e de cargos; mas sim do próprio sistema e do equilíbrio entre poderes locais e continentais. Quem pensa que relações e circunstâncias do passado permitem continuar a prever o futuro corre sérios riscos de prejudicar todos quantos em si confiam e de si dependem. Nestas circunstâncias, como facilmente entenderá, se alguém souber o que está em curso é porque integra o núcleo duro que tem como primeiro desígnio garantir que mais ninguém sabe de nada.

Está assim em causa a minha própria credibilidade numa carreira feita de enriquecer promovendo o enriquecendo dos meus amigos. Por isso sinto a urgência de lhe explicar que já percebi que já nada sei. Prometem-me isto e aquilo nos corredores do Palácio, mas leio o contrário nos documentos que pões a circular; explicam-me este mundo e o outro nos escritórios, mas vendem-me coisas de outro planeta nos campos de golfe; passam-me relatórios a anunciar a bolha imobiliária, mas os conselheiros do poder cavalgam alegremente no mito do mercado livre; todos os casinos avançam para o Cotai, mas não há luz verde para importar mão-de-obra – muito menos para renovar as concessões (e subconcessões); tenho mais amigos convidados o governo do número de secretários que existe, mas nenhum deles foi sequer proposto para mandato do céu; já soltei vários nomes em Pequim, mas nenhum parece merecer bênção sem senão.

No seu lugar congelaria os investimentos em curso, pelo menos aqueles que dependem de promessas e de compromissos com quem hoje pensa que amanhã terá poder para fazer andar umas coisas em vez de outras. É claro que pode fazer precisamente o contrário: avançar com as suas apostas e cruzar os dedos; porque quem acertar antes do tempo vai ver do camarote os outros chegarem para o beija-mão.

O problema é que eu sei – ainda não lhe tinha confessado – que a massa que faz circular por aqui nem sequer é sua, pelo que a ainda lhe correr mal a vida se não tiver alguma prudência. Veja lá que até os advogados mais insuspeitos já atiram nomes para a lama do tribunal; anda muita gente importante a mudar de cadeira e outros sem saber onde se sentam; e até o Chefe já anda em público às turras com membros do seu Executivo… Isto já não é o que era.

Nestas condições extremamente difíceis certamente compreende a minuta que lhe envio em anexo, aumentando a minha avença em cerca de 25 por cento. Porque é muito mais difícil agora garantir que não tenho a certeza de nada. Se por acaso me distraio, por falta de meios, ainda corro o risco de acreditar em alguma coisa… E o amigo é que paga.

 

Sempre ao seu dispôr

O amigo de Macau

 

PS: Texto de ficção que, por mais verosímil que pareça, não deve ser confundido com a realidade

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