(in)Diferenças Urbanas 2

Paulo Mendes Ricardo*

(continuação…)

A reflexão sobre a evolução das cidades impulsionada pela Revolução Industrial, no mundo ocidental, efectuada sumariamente na última rubrica, será agora acompanhada pela problematização da evolução da cidade no mundo oriental.

Rigorosamente, esta reflexão assentará na prática sobre o desenvolvimento das (mega) cidades na China, país que hoje agrega Macau, como sua região administrativa especial.

Efectivamente, a China pela sua dimensão geográfica e pela expressão demográfica, representa a realidade de uma parte significativa, rica e muito interessante do globo que influenciou toda a evolução da cidade na Ásia.

No final da década de 50, bem como nas décadas de 60 e 70 (século XX) respectivamente, depois do “Grande Salto” e da “Revolução Cultural”, a China encontra-se envolta em inúmeros problemas que atormentam toda a sua população. Os elevados índices de fome e de desemprego eram os problemas mais significativos. Estas contrariedades eram compreensivelmente determinantes na condução das políticas de desenvolvimento do país, depois de fracassada a movimentação de milhões de pessoas do trabalho rural para as indústrias estatais nas cidades.

Em resposta a estas dificuldades, cria-se o ‘hukou’, sistema que visava controlar a mobilidade da população chinesa através de um rigoroso registo de habitação para a população citadina e atribuía às populações rurais uma porção de terra que não poderia ser, nem vendida, nem hipotecada.

Através deste mecanismo a China conseguiu resolver o problema de uma migração interna, descontrolada em direcção aos meios urbanos e, também, o problema da fome nos meios rurais.

No início dos anos 80, províncias como Anhui, Sichuan e Guizhou, das mais pobres regiões da China, viram o maior número de pessoas abandonar os seus territórios em direcção às regiões mais a sudeste do país. Estima-se que cerca de 160 milhões de pessoas se mudaram para estas zonas. Contudo, as cidades onde habitavam apenas alguns milhares de pessoas passam a ter que albergar milhões, num curto espaço de tempo, como o comprova a cidade de Shenzhen.

Efectivamente, a cidade não tem tempo suficiente para se adaptar. Ferramentas como o urbanismo ou o planeamento urbano não conseguem responder de forma satisfatória, em tempo útil, a esta exigente demanda. E, as populações ávidas de abrigo, moldam a cidade e criam o seus próprios “abrigos” (espaços).

Por esse motivo, criam-se as muito conhecidas densidades populacionais massivas que pulverizam toda a Ásia.

Na verdade, encontram replicadas infindáveis vezes fracções muito pequenas, partilhadas por dezenas de pessoas, acrescentos de andares nos edifícios, ruas interiores, insalubridade, humidade e condições de higiene precárias…

As cidades transformam-se, assim, em um grupo de pequenos aglomerados que, de tão densos que se apresentam, são confundidos com monólitos independentes uns dos outros, que pulsam e se comportam como pequenos organismos vivos e independentes uns dos outros.

Um dos exemplos exemplo mais estudado deste fenómeno é a cidade de Shenzhen, que em apenas trinta anos (1978-2010) passa de uma população de apenas alguns milhares de habitantes para cerca de 12 milhões em 2010. É ainda previsível que o crescimento desta cidade estabilize apenas em 2020 com uma população a rondar os 15 milhões de pessoas.

De forma sucinta, a rubrica passada foi finalizada com a comparação de duas imagens que reflectiam o crescimento enorme da cidade de Londres ao fim de pouco mais de cerca de dois séculos e meio de história. Termino, desta vez, com duas imagens da evolução da cidade de Shenzhen que estabelece a evolução da cidade em pouco mais de quarenta anos.

Se, por um lado, o desenvolvimento ocidental teve de resolver problemas de ordem socioeconómica de forma considerada célere, de acordo com o saber e recursos disponíveis na época, por outro, neste momento o que está a acontecer no Oriente em geral, não é só extraordinário, mas também um incomensurável esforço, de forma a responder às necessidades das populações. Além disso, há a considerar a velocidade a que está a ser feito, que ultrapassa o compreensível.

Como observador, acredito que todas as mudanças levam o seu tempo a serem absorvidas e aceites pela sociedade. Aguardo, por isso, com expectativa, como será a reacção das populações a este ordenamento imposto pela rapidez de resposta e as consequências que dele advirão, na perspectiva sociocultural.

*Arquitecto

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