Um banquinho para assistir à política

Maria Caetano

Ouvimos há dias o Chefe do Executivo apresentar as Linhas de Acção Governativa para o ano de 2014, com três grandes ideias-chave: requalificação e atracção de quadros locais; reformas a longo prazo; distribuição de apoios de curto prazo, enquanto as ditas reformas não dão sinal de si. O programa débil da acção executiva desiludiu vários sectores, na ausência de medidas concretas que superem em peso a política de distribuição de regalias para uma população pressionada entre os salários e a inflação, a deterioração da qualidade de vida e dos serviços públicos.

O dinheiro já não chega para satisfazer as necessidades, prementes e concretas, de habitação, de serviços de saúde, de formação qualificada, de mão-de-obra, de espaço, de opções, de bem-estar. Já todos sabíamos que o dinheiro não dá saúde nem felicidade, mas nunca tínhamos provavelmente visto a máxima tão estreitamente aplicada ao colectivo e à governação como nesta região administrativa especial. A ideia de ter cofres recheados no deserto expõe as fragilidades do modo como se tem vindo a fazer política localmente (a real, da acção pública, e não a de exercício de influência – que num sistema político estagnado e comandado a partir do exterior, será modesta como a extensão do território).

Podemos acreditar que a moralização da acção pública, e respectiva responsabilização, chegarão como uma fatalidade sem consequências. A falência dos serviços e a extinção da qualidade de vida não implicam com o poder, por mais manifestações que saiam à rua. A reprodução do modo de fazer trará no fundo outros mesmos protagonistas.

Quando se diz que a região deve assumir a sua especialidade – que não passa apenas pelo exercício da autonomia, mas também – talvez se vá por melhor caminho. Macau entrou na moda da política central em grande contratempo, e começou a preparar planos decenais como se só houvesse amanhã (na saúde, no ambiente, etc.), como se não tivesse a dimensão de casca de noz que tem. Os corpos pequenos não têm as mesmas necessidades que os grandes, precisam de atenção e ajustamento constante. Um pequeno toque no Continente não faz mossa, mas em Macau esmaga.

Não se pode delinear nesta região reformas graduais à escala do Continente e depois deixar a direcção em piloto automático até que tudo se ajuste com o tempo. Estes ajustamentos são feitos de enormes sacrifícios na micro-escala local, que talvez nunca sejam ponderados. Quando há pouco para perder, não se pode arriscar esse pouco.

Assistimos durante os últimos meses a este efeito esmagador a operar-se visivelmente sobre o comércio. Os indicadores mostram que a contribuição dos negócios do sector de retalho para a economia tem vindo a aumentar, mas como muitos custos para a capacidade local.

A cidade está a ficar sem dedos, mas com excesso de anéis, a cada casa de comércio que fecha portas – deitando por terra o investimento em bens, serviços e pessoas mais qualificados, na capacidade de gestão local. A morte do pequeno empreendedor local faz sobrar pessoas a quem resta realizar trabalho mais ou menos indiferenciado.

Não que não deva haver espaço para as grandes marcas e cadeias de comércio que por cá não existem. Mas quem governa a economia, e tanto empenha palavras no objectivo de diversificação e da promoção dos talentos locais, devia fazer muito melhor e não reclinar-se num gabinete de onde assiste ao sangramento dos pequenos negócios enquanto lhes oferece dinheiro em vez de condições – não são sinónimos, não.

A qualidade ambiental vai-se, ou foi-se. Os últimos indicadores divulgados são de 2011 – de há dois anos, em reflexo do longo prazo que para tudo há nesta terra sem o mínimo sentido de urgência. A agência governamental para o ambiente, que pouco mais tem feito do que “sensibilizar”, revela agora que há dois anos tudo estava a piorar: a qualidade do ar, do mar, das águas da rede, a carga turística e populacional, a produção de resíduos, o consumo de electricidade. A pressão é grande e será maior, já em 2013, enquanto o epíteto de cidade internacional de turismo e de lazer legitima a continuação dos sacrifícios, a olhar para o grande prazo. Mas onde é que queremos chegar, afinal? Alguém se lembra?

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