Desafios da língua

Fernanda Gil Costa*

Decorreu em Lisboa nos passados dias 29 e 30 de Outubro a “II Conferência da Língua Portuguesa no Sistema Mundial”

Depois da conferência, em encontros multilaterais entre os representantes dos vários países de língua oficial portuguesa, espera-se, apesar das dificuldades e mal entendidos que se sentem no ar,  que seja aprovado  o “Plano de Acção de Lisboa”. Este plano  deverá substituir,  acrescentar e talvez actualizar o de Brasília, acordado em Março de 2010. De facto, no passado dia 2 de Novembro foi anunciado pelo embaixador Rui Aleixo, em conferência de imprensa, que o  Plano de Lisboa contempla duas partes: «a avaliação do que foi feito do Plano de Ação de Brasília e da sua implementação e medidas inovadoras em relação ao de Brasília». As notícias que sobre esse novo plano vão surgindo mereceriam um longo destaque, mas teremos de esperar melhor oportunidade.

Quanto à conferência propriamente dita, é cedo para discutir detalhes. Porém, parece  oportuno comentar as tendências e opções, as mesas redondas, os contributos, apresentações e sessões que ao longo de dois dias movimentaram parte da capital portuguesa, embora seja uma agenda demasiado vasta para esta intervenção.

Escolhemos destacar, porém  (porque alguns desconhecem), que o Plano de Ação de Brasília, elaborado pelos representantes da CPLP,  não faz qualquer referência ao facto de o português ser  língua oficial na RAEM (é claro que a RAEM e/ou a China não são membros da CPLP por razões óbvias!); mas como em Macau se ensina português em todos os níveis de ensino e o português é língua oficial de comunicação, de administração, de ciência,  e ainda área de produção e experimentação pedagógica e investigação científica,  é igualmente reconfortante que a II Conferência sobre o Futuro do Português no Sistema Mundial tenha agendado uma sessão sobre o Ensino do Português na China, presidida por Ana Paula Laborinho, actual presidente do Instituto Camões e que dispensa apresentações em Macau.

Nessa sessão foram apresentadas comunicações sobre o tema por um representante da Universidade de Línguas Estrangeiras de Beijing, por um grupo de professores do IPM, representados pelo presidente do Centro de Português que pertence à mesma instituição,  e pela autora destas linhas, que se apresentou à conferência a título individual e não em representação do Departamento de Português da Universidade de Macau que, embora avisada sobre a importância (talvez relativa) do evento, não se sentiu por ele motivada  a ponto de enviar representação oficial. Opções que têm consequências, evidentemente.

Do que ouvi nessa sessão,  retenho  sobretudo a visão lúcida e corajosa do professor chinês que participou na sessão. A Universidade de Línguas Estrangeiras de Beijing é conhecida em Macau pela tradição de qualidade  dos alunos que envia para as várias instituições com as quais mantém cooperação e intercâmbios, entre elas o Departamento de Português da Universidade de Macau. No entanto, a intervenção do professor de Beijing chamou a atenção para o lado oculto do crescimento  do ensino de português na China,  exponencial nos últimos anos, de que estamos habituados a contemplar apenas a curva ascendente jubilosamente exposta  em gráficos coloridos.

O que está em causa, afinal, é a generalizada falta de qualificação dos agentes de ensino de português, contratados para leccionar cursos  que parecem responder a uma tendência pouco racionalizada do mercado do ensino superior na China Continental, e não a uma vocação, sem estudo prévio das necessidades do público alvo. A contratação  de professores de português segue, em muitos casos, critérios meramente automáticos (logo, discricionários) de resposta porque neste momento a procura excede largamente a oferta.  Além disso, e isso já era  conhecido, mesmo nas universidades mais prestigiadas não existem, praticamente, mestres e doutores em Estudos Portugueses para coordenarem e alavancarem o aprofundamento dos cursos universitários,  o prosseguimento de estudos para níveis superiores de graduação, e a formação dos professores  e das estruturas pedagógicas e científicas necessárias à fundação e manutenção dos estudos portugueses de qualidade.

Há muito que se fala em Macau de formação (sobretudo académica), qualificação e treino de professores na China. Creio agora que essa formação não deve ser feita sem um diagnóstico apropriado dos formandos e das instituições que a solicitam ou desejam, provavelmente em situações de necessidade muito diversificada. É uma tarefa que pode perder-se ou ganhar-se, em Macau, dependendo da capacidade de avançar  com determinação e serenidade. Há forças vivas que podem enfrentar este desafio se derem as mãos,  se juntarem esforços e fizerem um criterioso estudo prévio no terreno da intervenção que é urgente empreender.

* Professora  universitária, Universidade de Macau

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